Luísa Nóbrega

De nuvem
Revisão de 23h21min de 23 de abril de 2012 por Luísa (Discussão | contribs) (.a linguagem, o jogo, a máquina.)

(dif) ← Edição anterior | Revisão atual (dif) | Versão posterior → (dif)
Ir para: navegação, pesquisa

.ventríloquo ou talvez tudo já tenha sido dito.

durante a residência, gostaria de dar um novo desdobramento às explorações que venho desenvolvendo a propósito de silêncio e da linguagem, e dos interstícios entre voz e palavra, da comunicação e de seus ruídos – tema que me toca de muito perto, uma vez que sou portadora de uma deficiência auditiva leve, precisando de aparelhos auditivos que tornem minha percepção mais próxima daquela que é considerada normal. Dessa vez, gostaria de explorar a relação com um aparelho tecnológico mecânico, simples: um gravador digital. Quais são os interstícios entre aquilo que desejaríamos dizer e aquilo que de fato dizemos? Entre aquilo que dizemos e a maneira como o outro o compreende? Será que a fala que dirigimos aos outros não é muitas vezes uma fala repetida, ouvida em algum lugar a que não sabemos dar nome? Em que medida nossa fala é a presentificação da fala de um Outro imaginário, ausente?

Hearing trumpet.jpg

essa proposta foi realizada, pela primeira vez, durante a residência de verão na nuvem, do dia 29 de janeiro ao dia 04 de fevereiro de 2012, e retomada durante a residência permanente, do dia 11 ao dia 25 de abril de 2012. a primeira vinda aparece registrada aqui em um diário de 07 dias. a segunda, em um ensaio literário filosófico.


.janeiro/fevereiro. primeira vinda.

.primeiro dia.

tentar entender o que tecnologia é. um assunto que em princípio deixo de lado como algo que nao me diz respeito. e no entanto, minha vida é mediada por próteses e aparelhos. vim para cá com apenas uma lente de contato e um aparelho auditivo. colecionando assimetrias. a correçao é imperfeita, mas de algum modo me basta. como se nao precisasse ver e ouvir demais. o que sao, afinal, as minhas próteses? às vezes nao sei se elas me fazem mais forte ou mais vulnerável. sao discretas, semi-invisíveis. quase silenciosas. a nao ser quando um braço, um rosto ou uma almofada de encontro ao ouvido fazem um apito soar, ou eu adormeço sem que as lentes descansem no soro e acordo com os olhos secos, avermelhados, ardidos. alguém me fala de satélites e cartografias. um texto fala da tecnologia como mimesis: fotografamos assim como os antigos criavam figuras rupestres. e eu me inventei um aparelho para falar como uso desde os três anos de idade aparelhos para ouvir. mas ainda nao sei usá-las, torno-me muda. meu invento é algo tosco, imperfeito. inventei uma prótese desengonçada, desnecessária, visível e explícita. que me perdoem as próteses sofisticadas, versáteis, quase infalíveis que mediam e filtram aquilo que vejo e ouço. a tecnologia transforma meu corpo e torna-o agudo.

Ear.jpg


.segundo dia.

adentrar uma residência é, de certo modo, adentrar outro tempo. sobretudo quando se está distante da cidade. o dia todo, chovia. conversas sobre gênero, sexualidade e pornografia. sotaques, nomadismo. e enquanto os outros falam eu elaboro mentalmente respostas. quando tenho algo a dizer no gravador, os outros têm que aguardar enquanto faço os necessarios ajustes no gravador mecânico. às vezes sinto taquicardias. todos prestam atençao excessiva às minhas falas gravadas: sou absolutamente responsável pelo que digo. sem volta. como se as palavras, distorcidas, granhassem peso demasiado. lembro-me da minha adolescência, insegura, incerta, dolorosamente tímida. dirigir uma palavra aos outros, especialmente a homens desconhecidos, era de um esforço descabido. muitas vezes tenho que repetir as faixas, para que os outros compreendam: a responsabilidade torna-se maior ainda. penso em raspar os cabelos. reescrevo poemas antigos. quando cozinho, faço sempre uma quantidade de comida exagerada, descabida. wittgenstein, no seu diário, escreve: meus pensamentos quase nunca vêm ao mundo sem mutilaçoes.

.terceiro dia.

meu gravador é um tanto impróprio para a fala cotidiana, demasiado lento. o silêncio predomina, enquanto o gravador o pontua com falas escolhidas, depoimentos. o espaço da fala como o espaço de um confessionário. confessionário esse em que preparo as frases que soltarei ou nao em público. ouvir a própria voz gravada, inúmeras vezes. orgânico x artificial, natureza x tecnologia - oscilamos, mutáveis, entre os dois extremos de um movimento pendular. a natureza nos aproxima vigorosamente de imagens que nos acostumamos a ver apenas com a distância segura dos planos bimensionais de videos e fotografias. nos arremessa, incautos, em meio a densa neblina. deitar-se numa pedra, depois de atravessar a água gelada de uma cachoeira. tirar os aparelhos antes de mergulhar, deixar o gravador seguro dentro da mochila - pouquíssimos aparelhos são à prova d'água. e, ao mesmo tempo, o som da estática é curiosamente semelhante ao ruído da água corrente gravada. tremer de frio, mal sentindo maos e pés, pequenas pontadas agudas nos maxilares. e tudo isso ser tao bom. nao sei dizer se esse tremor é fruto do frio apenas, ou de alguma espécie de comoçao violenta. deixar que as pedras nos aqueçam e que a água nos aplaine.


Hearing aid.jpg

.quarto dia.

sentir-se completamente imerso nesse lugar, até além do pescoço. começando a compreender a lentidao e timidez do meu inconveniente gravador. enunciando decisoes em que venho pensando a dias - amanha corto os cabelos. vontade de deixar esse lugar com marcas permanentes. concretizar minhas imagens eróticas em resposta à proposição de Taís Lobo e decidir que agora em diante quero experimentar um outro tipo de amor. a vida é tanta vezes uma farsa bem ensaiada, mas ainda assim é possível encontrar alguma espécie de otimismo selvagem. quero quebrar xícaras, arremessar copos contra a parede. ser contaminada pelas pessoas que estao aqui e por aqueles que encontrarei nos caminhos abertos â frente. "tienes que cambiar tu vida!" uma voz me repete incansavelmente.

.quinto dia.

o som da máquina passando pela minha cabeça e me raspando lentamente os cabelos, me atravessando o couro cabeludo com um toque suave que às vezes se torna pontudo e incisivo. sim, a tecnologia pode tomar parte em nossos rituais inventados. diálogos entre máquinas de espécies distintas. a tecnologia, como qualquer linguagem, embora traiçoeira, pode ser subvertida. deixo que me atravessem o couro cabeludo mudanças parcialmente irreversíveis. eu escutei inteiramente o tempo em que se deu essa passagem? as transformações sao sempre um tanto invisíveis, percebo-as lentamente, aos poucos. uma voz mecânica me interroga, lenta e insistente, em um sotaque indistinguível e anônimo. separando curiosamente as sílabas. sim, eu tenho escutado diferente (os ruídos um tanto mais evidentes, uma atençao maior às palavras dos outros, que reverberam por mais tempo, como coisas vivas). sim, às vezes eu também queria ser muda. eu nao tenho como te explicar. tenho prestado mais atençao aos meus dois pequenos aparelhos, (in)fiéis mediadores. como a gente naturaliza facilmente aquilo que é artificial. ou talvez a idéia de natureza seja para nós totalmente utópica e inventada - ao menos enquanto existe linguagem. a linguagem tenta aplainar as ausências e faz com que elas se multipliquem, se tornem menos óbvias. as presenças sao menos óbvias. e, no entanto, acumulando próteses, estamos vivos - e fazemos escolhas e tentativas e apostas, e nos espantamos. a sensaçao indescritível do tecido das roupas roçando minha cabeça de fios pequeninos e pontiagudos. vou embora diferente de como cheguei.

Hearing aids 1949.jpg

.sexto dia.

é o penúltimo, e eu nao acredito. sempre tenho a impressao que as coisas se dao em duas metades um tanto separadas e intocáveis: o começo e o fim. entre eles, as coisas se dao de modo inexplicável. os primeiros dias foram longos e cheios como semanas. mas eis que a semana propriamente dita, cronológica, termina bruscamente, passa quase como um dia. eu com certeza passaria muito mais tempo aqui. vou embora num susto. sentindo que as coisas que estou investigando aqui, assim como os encontros com as pessoas, vao precisar ser retomados. ainda bem que ainda tenho amanha. para começar a conhecer aqueles que acabam de chegar. talvez haja algo de inesperado que ainda nao sei. cada dia aqui teve sua cor, e a de hoje foi a do desconcerto e incerteza. hoje meu gravador esteve bastante gago e um tanto indeciso.

.sétimo dia.

o dia ainda não terminou, e eu já ensaio começar a escrever. tenho impressão que o de hoje será um relato sucinto, de poucas palavras. porque não se fala do que não se entende. e minha despedida desse lugar vai ser um tanto brusca. eu precisava de mais, meu gravador precisava de mais. a comunicação falha uma vez mais. e eu repito: eu não tenho como te explicar. não tenho como te explicar. sem minha caixa de som, vou ficar desamparada. amanhã, acordar cedo e ir para o rio fazer uma performance em que pela primeira vez em muito tempo vou falar em público. vai haver um microfone, e água fervente. creio que vai arder. continuo sem saber o que fazer das palavras.


Audiology1.jpg

.intermezzo. registro da ação realizada no dia seguinte, no vênus terra, rio de janeiro.

.juramento ou que sejas frio ou quente. retomar a palavra.

Sobre uma mesa, em algum lugar do espaço, há um fogareiro, uma jarra de vidro com água e um balde de gelo. Em frente à mesa, há um microfone em um pedestal. Após um dia passado em jejum e silêncio, de pé, acendo o fogareiro e coloco a água da jarra para ferver. Coloco a mão direita dentro da jarra e começo a falar ao microfone, num discurso acelerado, não pensado previamente, procurando emitir o máximo de palavras possível: um fluxo contínuo de associações imediatas de idéias. A fala prossegue até o momento em que a água ferva e eu não aguente mais manter minha mão dentro da jarra, retirando-a bruscamente e colocando-a no balde com gelo. Nesse momento, poderei fazer sons, porém sem que sejam articulados em palavras. Permaneço com as mãos ali tanto quanto me for possível, e então deixo o espaço e volto a estar em silêncio até a manhã seguinte.

Juramento.png

video

.abril. segunda vinda.

.a linguagem, o jogo, a máquina.

"inventar uma linguagem poderia significar: inventar, com base em leis naturais (ou em concordância com elas) uma aparelhagem para uma determinada finalidade; tem, porém, um outro sentido também, análogo àquele em que falamos da invenção de um jogo."

"o termo 'jogo de linguagem' deve aqui salientar que o falar da linguagem é uma parte de uma atividade ou de uma forma de vida."

"falamos como se as peças só pudessem se mover desse modo e não pudessem fazer outra coisa. como é isto - esquecemos a possibilidade de entortarem, partirem, derreterem, etc.? sim: em muitos casos não pensamos nisso (...) tendemos a comparar o futuro movimento de uma máquina, em sua exatidão, com objetos que já estivessem numa prateleira de onde seriam tirados por nós (...). mas o fazemos quando nos admiramos de como podemos empregar a máquina como símbolo de um modo de movimento - uma vez que ela pode se mover de modo intamente diferente."

(wittgenstein)

dessa vez escolho não fazer um diário. opto por fragmentos em sequencia, algo semelhantes às faixas numeradas do gravador. escrevo segundo um método de operação semelhante ao que utilizo para gravar as faixas. algumas têm uma função pragmática, outras nos parecem de algum modo expressivas. fragmentos meus e de outros. que eu posso vir a utilizar ou não (muitas vezes não). nenhuma conexão entre eles a não ser o fato de que quem gravou fui eu. com a voz que, num jogo de linguagem corriqueiro, chamo de minha.

(aforismos e citações. fragmentos a esmo)

1. em minha segunda visita à nuvem, decido investigar mais a fundo a minha suspeita de que a linguagem seja uma forma de tecnologia - ou a tecnologia, uma linguagem. e wittgenstein me lembra de que é possível chamar, a ambos, de jogo. um jogo com regras arbitrárias, com limites e interdições. inventar novas regras para o mesmo jogo, transformar a maneira de falar, subverter o uso de uma máquina - significa - nos três casos - inventar novos modos de vida.

2. tentando descobrir um novo modo de falar.

3. a linguagem, nos diz w., não serve para comunicar nada que esteja oculto por detrás dela. cabe a ela propor jogos, ensinar comportamentos. o aprendizado da linguagem não é a descoberta da relação entre palavras e coisas, mas um treinamento. aprendemos a falar obedecendo ordens. como quando aprendemos a manusear um aparelho de determinado modo, seguindo um manual de instruções. alguém nos diz não e obedecemos. como faz um cachorro. ou, como um gato, aprendemos a desobedecer.

4. diz w.: como quando nos ensinam a colocar a palavra dor no lugar do grito. a palavra dor ensina um novo comportamento diante da dor, não a descreve.

5. uma amiga me manda um email acerca de um trabalho da sophie calle, doleur exquise. e eu respondo a ela falando de w. (sou obsessiva). pergunto a ela, me referindo a um poema de fernando pessoa encontrado ao acaso nas últimas semanas : "será que em alguma medida não é uma felicidade ter o coração despedaçado"?

6. (nenhum manual de instruções impede que um aparelho exploda. ainda bem.)

7. aquilo que chamamos de dor também pode ser objeto de jogo. como uma criança que pressiona com a língua, muitas vezes, o dente dolorido, para sentir todas as vezes a mesma sensação levemente aguda - dor, dor.

8. ontem à noite, pisando na minha bolsa, alguém fez com que repentinamente soasse o gravador, à minha revelia. senti um sobressalto. há algo de obsceno, em que alguém te tire palavras da boca.

9. sim, o gravador é uma extensão da minha boca. ainda que ele esteja, dessa vez, mais silencioso.

10. diz C.: as máquinas reagem às atitudes emocionais de seus donos. possuem carência, e intransigência, e rebeldia.

11. eu sou uma máquina? sim.

12. um gravador também pode ser uma voz em off. I. me lança a pista. então me vejo, da janela, deitada na grama. o gravador lê algumas páginas de wittgenstein, descrevendo a paisagem.

13. o quarto. o momento em que eu desperto, pela manhã. mesmo quando o dia está iluminado, o quarto é escuro. e indescritívelmente silencioso e privado. muita coisa se passa dentro dele, antes que eu reúna o computador, os livros, e desça as escadas com o gravador na mão direita, os outros já sentados na mesa do café - ainda descendo os últimos degraus - ele diz: "bom dia".

14. a timidez de ouvir a própria voz gravada, diante do outro. quando falamos corriqueiramente, fazemos algo, não observamos tão atentamente o rosto e as reações dos outros às nossas palavras (mal) escolhidas, não escutamos com essa impiedosa precisão nossas indecisões e titubeios.

15. as indecisões são igualmente registradas pela máquina.

16. hoje meu gravador desapareceu. ele desistiu temporariamente desistir de mim. perdi a voz.

17. mais uma vez a hora de ir chega repentina, algo brutal. chegar faz tanto sentido, partir não faz quase nenhum. de novo eu não entendo nada. e de novo, tenho vontade de voltar.

18. da outra vez eu raspei a cabeça. dessa, cortei os cabelos de I.