Tais Lobo

De nuvem
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ANTROPOFAGIA ICAMIABA

Peitos.png


Comer é alimentar-se, nutrir-se - e nestas terras é também copular; termo, aliás, sempre muito empregado pelas subjetividades biocabramachos disseminadas por aqui. No entanto, entre xs possuidorxs de cavidades vaginais - e outras tantas cavidades ativas-passivas-ativas - é muito claro que se os orifícios engolem, são eles os agentes comedores. Se assim é, a antropofagia começa por todos os nossos buracos - as pupilas, as narinas, a boca, o cú, a boceta, a uretra, os poros, o ouvido, os chakras.




→ Ritual antropofágico praticado por guerreirxs amazonas sudakas: xs icamiabas.

→ Pesquisa colaborativa e compartilhada que consiste em auto-registros videográficos obscenos ou auto-pornografia, apenas.

→ Investigação de outras linguagens audiovisuais, comunicacionais e corporais, na tentativa de desenvolver dispositivos que impulsionem a desconstrução e a recriação constantes do erotismo e de nós mesmxs.

Considerando que os dois maiores (ainda que ocultos) sustentáculos da estética e do pensamento hegemônicos sejam o gênero e a sexualidade, cujos maiores suportes de ostentação e de difusão são o vídeo e a web (tecnologias chave na construção das identidades e na produção das subjetividades), tendo em vista a pornografia desde uma perspectiva feminista e considerando que tudo estar por construir, principalmente em um ambiente úmido, propício às re-apropriações antropofágicas e praticante do mesmo, no caso, a América do Sul, é de suma estratégia e importância que as gramáticas da representação audiovisual, suas tecnologias e dispositivos sejam re-fabricados, rescritos por mulheres, distintas entre si, à partir de suas singulares experiências de vida.

Através dos processo de experimentação de linguagens corporais e audiovisuais, experimenta-se, também, o distanciamento crítico e a confrontação de nossas próprias reproduções estéticas e comportamentais, de maneira que códigos culturais nos são revelados, desautomatizados e, assim, rescritos. Em outras palavras, é esta uma das formas de (re)apropriar-se de tecnologias e códigos que nos compõem política e culturalmente: tecnologias audiovisuais, de gênero e de sexualidade. Por fim, a ideia é des-criar, desconstruir, observar os escombros e reciclar/absorver o que nos serve. → re-criar-se.



Intuições (corpóreas) acerca de uma "auto-pornografia"


No livro “Sexta-feira - os limbos do pacífico”, de Michel Tournier, existe uma imagem que Deleuze[1] conceitua como “sexualidade solar”. Essa imagem aparece no momento em que o naufrago Robinson Crusoe, há anos sem contato humano, desenvolve uma relação erótica com alguns elementos e lugares da ilha. Conheci esse conceito há poucos dias e ele me intrigou demais, porque “sexualidade solar” talvez seja a imagem guia do projeto apresentado em maio deste ano, na “EncontrADa – corpo, feminismo e tecnologia”, no espaço Nuvem: o projeto Antropofagia Icamiaba – lab honorário, nômade/cigano, um work in progress de uma investigação audiovisual circunscrita nos movimentos da pós-pornografia, da pornografia feminista, da pornografia DIY “faça-você-mesmx”, em que a experimentação audiovisual talvez seja um dispositivo de provocação dos códigos que permeiam e constroem a nossa sexualidade; uma auto-pornografia que desestabiliza e mareia nossos prazeres e desejos naturalizados, incorporados. Um sexorcismo.

Havia escrito há alguns meses um pequeno manifesto sobre como as pessoas envolvidas no projeto o percebem, explicando-o minimamente, ainda que muito temerosa de cair em qualquer armadilha de linguagem, de conceitos. Nomear definitivamente pode ser fatal, apropriável, passível de cooptação e de sujeição. E por outro lado, como invocar a inteligibilidade e as afinidades, senão através daquilo que escrevemos, das imagens, conceitos, práticas e mudanças que somos capazes de criar? A linguagem nos liberta e nos aprisiona, movimento constante, dialético e, claro, extremamente necessário para que nada jamais se estanque.

Esse questionamento é para não localizar definitivamente este projeto: hoje ele está circunscrito em um lugar que talvez não o diga mais respeito, amanhã. Os conceitos que o atravessam não são definitivos e, quando forem, não dirão mais respeito às suas imagens: elas transbordarão. Um fluido corrente talvez o enuncie mais do que qualquer conceito. Fluidos aquosos, gelatinosos, transparentes, rubros, fulminantes: disformes. O nada, o limbo do pacífico, cujo difícil acesso só pode ser possível através da experimentação.

Carol J. Adams[2], no prefácio de seu livro “A Política Sexual da Carne”, admite que “a dominação funciona melhor numa cultura de desconexões e fragmentação” e que “o feminismo reconhece conexões”. Neste mundo existe um campo muito bem delimitado por binarismos e linguagens desempoderantes. As conexões, quando não-lineares e em rede, podem superar os binarismos e nos levar a um campo tão vasto quanto esse limbo, onde, sem nada mais para ver, somos impulsionadxs a criar nossas próprias imagens, a ativar nossa criatividade, a encontrar àquelxs que, pelo mesmo impulso, chegaram ao limbo também. Esse é o limbo da linguagem (na qual a sexualidade também se insere) desconstruída, a ilha daquele náufrago que, sem estar sob efeito de forças ditas “naturais”, passa a fazer parte do “amálgama ilha”.

Como uma sexualidade para além do antropomorfismo, a sexualidade solar deixa de ser uma sexualidade para ser uma experiência (erótica), que transcende, por exemplo, a diferenciação de órgãos sexuais dos não-sexuais. É a exacerbação da “contra-sexualidade”, de que fala Beatriz Preciado[3] - grandioso instrumento. O corpo desterritorializado, numa relação com o meio, descendente direto de uma poeira cósmica. Uma relação corpórea que deixa de ser antropofágica: ela fagocita o meio sem devastá-lo, já que o corpo se fusiona ao meio; prazer esquizofrênico.

Icamiabas (do tupi i + kama + îaba, significando "peito rachado"[4]) são índias arqueiras que, para melhor manuseio do arco-e-flecha, cortavam um dos seios. Uma lenda da região de Santarém, Pará, Brasil, que dizia existir ali uma comunidade dessas índias guerreiras que, sob uma perspectiva do colonizador, foram associadas às Amazonas ocidentais. Entendo as Icamiabas não como um microcosmo utópico, mas como uma rede de afinidades – as náufragas guerreiras que escutaram umas às outras e armaram uma singular estratégia bélica. Entendo o feminismo como instrumento estratégico, como um dispositivo de devoração, desconstrução e hackeamento das estruturas e códigos que nos compõem – e que não escolhemos. Instrumento essencial de condução ao limbo, de condução a uma outra forma de relação. Entendo a câmera (fotográfica e de vídeo) como uma extensão de nosso corpo cyborg[5], que pode assumir, então, sua pulsação. Entendo a sexualidade como principal alvo de infiltração do código, o manifesto estrutural de um mundo que tende a normalizar-nos, a docilizar-nos, a binarizar-nos, e que, por isso, tende a sexualizar os hormônios e os órgãos, e a assexualizar a política.

Este trabalho foi desenvolvido por aquelxs que escutaram umas às outrxs e que escutaram a urgência de hackear a própria sexualidade – que ainda é uma sexualidade – e de expô-la a um ponto de mutação, sem temores, muito pelo contrário, num caminho sem volta e que, oxalá, nos conduza ao limbo do pacífico.


Notas:

[1] Gilles Deleuze. Michel Tournier e o mundo sem outrem. In: DELEUZE, Gilles. Lógica do sentido/ 1974. Ed. Perspectiva

[2] Carol J. Adams, A Política Sexual da Carne/2012. Ed. Alaúde

[3] Beatriz Preciado, Manifesto Contra-sexual/ 2008. Ed. Espasa

[4] Luis Caldas Tibiricá. Dicionário Tupi-Português/1894. Ed.Traço

[5] Donna Haraway, Simians, Cyborgs and Women: The Reinvention of Nature/ 1991. Ed. Routledge.


Referencias:

http://anniesprinkle.org/

http://girlswholikeporno.com/

http://www.mariallopis.com/

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Abaixo, alguns frames (congelamentos/estancamentos) de um processo formado por imagens e textos em movimento e fluidez, que encontram-se no site: http://antropofagia-icamiaba.hotglue.me/


Autoporno LUNA 01.png

frame de “Polifonia”


Autoporno karen 02.png

frame de “O Sexorcismo de Aily Habibi”


Autoporno tais 01.png

frame de “Onira Vira Rio”


Frame 02.png

frame de “Onira Vira Rio”


Autosexo FLOU.png

(sem título)


Frame cavalo.png

frame de “Speaker”


Frame luísa 01.png

frame de “Speaker”


Frame luísa 02.png

frame de “Speaker”



DIARIO - PRIMEIRA ESTADA NA NUVEM: (re)ENCONTROS - RETROALIMENTAÇÕES

a nuvem foi a primeira parada neste retorno ao brasil.

Retornar ao nível do mar, costa atlântica tropicana, um pouco mais prá dentro, onde até as montanhas também são mar- de morros.Voltar ao brasil depois de dois anos vivendo no país temperado vizinho do sul - em buenos aires, a cidade que virou as costas para o rio, e por isso mesmo fica ainda mais temperada. Eu não sou daqui, tampoco de allá, mas retornar aos ares que primeiro respiramos é um bom mareio. E lá, com mais clareza, descobri o daqui em mim.

Ainda lá, iniciei com duas amigas este projeto de auto-pornografia.

Muito antes de começá-lo já comia-bebia de algumas fontes, sobretudo dos livros de Beatriz Preciado e do trabalho de María LLopis, que desenvolve já há algum tempo um excelente e exemplar projeto de porno hazlo-tú-misma, ou seja, "pornô-faça-você-mesma". E mais antes disso ainda, no início da carreira de cinema - do contato com os trabalhos de Maya Deren- e nas minha primeiras experiências de auto-representação do corpo e da sexualidade, com vídeo, comecei a questionar o estatuto e as formas de representação das mulheres nos meios audiovisuais hegemônicos.

Só que restavam muitas dúvidas de como seria o mesmo processo nesta residência. Das dúvidas, as trocas: a tinta de terra da serra da mantiqueira, objeto de pesquisa de [Luzia de Mendonça], a tinta que vira água, de [Mariana]. Uma terra vermelha sob o corpo - cor da cabocla icamiaba, o rubro que constrói novos (auto)prazeres no meio do mato verde. O não-silêncio dos (auto)prazeres-desejos de [Luísa]. A experimentação de outras linguagens, novas comunicações e relações com o meio e os afetos, e o suporte tecnológico e suas (re)apropriações e a experimentação de si e os cruzamentos de tanta experimentação, de tanta tecnologia, de tanta linguagem. Um ouvido que ouve com os dedos. Uma boca que chupa um pé, que pode penetrar e que pode ser penetrado, que é fálico e fenda ao mesmo tempo.

Troca e retroalimentaçao. Sair do jogo: raspar o cabelo coletivamente e usá-lo para a compostagem das terras da horta.

Comer comidas de ótima qualidade.