Mayra Martins Redin

De nuvem
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proposta para nuvem

Para a auto-residência Nuvem proponho uma experiência de criação narrativa, textual e fotográfica que parte da relação com o lugar onde vou habitar e das pessoas com quem vou conviver durante a residência. Tal experiência parte da percepção do lugar e suas especificidades: clima, paisagem, costumes. Para a criação das narrativas diversas ações são necessárias, como: a criação de intervenções rurais (que não degradam o lugar), proposições para serem experimentadas por outras pessoas (relacionadas ao lugar) e observação da passagem do tempo (nas suas diversas maneiras de ser percebida). Esta proposta baseia-se no processo e por isso trabalha partindo da cartografia. Por isso, não há um produto final definido, mas há um desejo de construção relacionada ao mergulho no presente: com o lugar, com as pessoas. Mas, apesar desta não ser uma proposta fechada, interesso-me pelos limiares entre artes visuais e literatura e o livro enquanto lugar que recria experiências ampliando-as para outras pessoas, portanto, os percursos de convivência e vivência vão dar as linhas para a criação de algo que poderá ser uma espécie de livro que registra e inventa um lugar vivido. Contar histórias (sejam “reais” ou inventadas) resgata relações esquecidas. Contar é dar sentido e tornar presente um tempo e um espaço compartilhado. Contar é levar adiante, é desculpa para trocar e para lapidar as relações.

--Mayra 14h45min de 17 de janeiro de 2012 (BRST)


Metade cheio metade vazio

“quando vocês cheguem, todas as luzes se acendem” tio Ivo Redin

Uma das primeiras conversas que tivemos ao chegar à nuvem (16 de janeiro) aconteceu em volta da mesa, durante e após a primeira janta. Ela tinha a ver com o ato de habitar, residir, morar, e também, fazer mudanças. Cada um contou um pouco da(s) sua(s) casa(s), por onde passou, das lembranças, dos esquecimentos. Das nossas casas reais, nos remetemos as casas dos nossos pais e avós, e até mesmo aos seus países. Existe uma hipótese de que estamos sempre em busca de uma casa. A casa da infância, a casa do presente, a casa do futuro. É uma busca por um certo lugar de conforto no mundo. Mas existe também uma busca por desconforto. (esta questão também apareceu em nossa conversa de nuvem-noturna: posso viver longe de “uma” casa? Posso levar poucas coisas? Posso deixar um lugar que habito?). Busca por lugar de desconforto gera mudança. Mudança literalmente: junto o que preciso e parto. Mudança demais, dentro de um tempo de uma geração, por exemplo, não deixa quase nada de resquícios para aqueles que depois resolvem fazer uma busca por suas casas de “infância”, ou por suas raízes. Encontram, quando encontram, paredes ainda rosas mas já se desfazendo, um fogão velho que alguém afirma que ainda é o mesmo, um rádio de madeira com um talho feito por uma faca do avô marceneiro distraído que cortava uma vareta escutando notícias sobre a guerra. Eu não estava lá, mas esta também era a casa da minha infância.

A primeira coisa que acontece quando a gente participa de uma experiência de residência artística é uma mudança de casa. Seja por quanto tempo for, a casa é outra. E é uma mudança concreta que se configura: mudam os objetos, mudam os lugares dos objetos. Mudam as pessoas. Nesta mudança para a Nuvem descobri algumas pequenas coisas:

Nem temos pouco tempo, nem temos tanto tempo assim Nem trouxemos pouca coisa, nem muita coisa Não faz nem tanto frio, nem tanto calor A casa não é pequena, nem grande O riacho é daqueles que você se molha médio; Experimentar essas simplicidades, nem tanto ao mar nem tanto a terra (quem diz isso sempre é o Ricardo), gerou um desejo de troca simples com os outros “mudantes provisórios”. Mas antes disso preciso contar outra coisa.


Numa outra conversa que tivemos ontem (18 de janeiro), a Cinthia pediu que contássemos sonhos que tivemos aqui na casa da nuvem. Dos sonhos noturnos tidos na casa fomos parar nos sonhos noturnos que tínhamos na infância, e na repetição e modificação deles. A Cinthia contou um sonho sobre um lago com muito musgo por cima, uma água que permitia enxergar o fundo, e ela ia testando com os pés até onde podia ir. Mas, de repente, era engolida pelo lago. Eu quando era pequena sonhava com uma piscina olímpica de noite. Ela tinha uma cor muito escura, azul-verde, e era assustadora porque mesmo límpida a água, por ser tão profunda ela se tornava escura, e eu sabia disso. Ricardo sonhou aqui na casa com o mar e com baleias e ele ia com uma baleia para algum lugar, ou seja, entrava na água. Agora, por exemplo, está chovendo, e o riacho não parou um só segundo. Eu vim munida de uma máquina fotográfica subaquática descartável com 27 poses. (a gente sempre costuma ter uma pequena intuição que está intimamente ligada ao medo de mudança. Quando vamos nos mudar pra outro lugar mesmo que por pouco tempo, levamos alguma coisa junto que a gente não sabe bem pra quê vai servir. Com esta máquina foi assim).


Proposta aos residentes

Então, com a sensação das metades, com a máquina subaquática meio-submersa, em busca de casa e de sair de casa que é sempre busca por metades e não inteiros, é que proponho aos outros residentes que façamos uma experiência juntos... Essa experiência não tem lógica, mas vai gerar pequenas ficções (feitas de pequenos textos e imagens) que terão como nome Metade cheio metade vazio. Cada um que quiser participar vai escolher um objeto: um objeto ou que possa ser colocado na água sem se danificar, ou que possa ser danificado ao ser colocado na água, isso porque ele será colocado na água. Seria interessante que este objeto tivesse a ver com estas conversas que viemos tendo: sobre o ato de habitar e de des-habitar, sobre as coisas que levamos e que deixamos pelo caminho, sobre elementos novos que encontramos e sobre lembranças que temos antigas. Cada um vai poder escolher também em que água pretende colocar este objeto: riacho que passa por aqui, cachoeira, dentro de uma poça, um copo d´água... metade da máquina vai ficar fora da água e a outra metade dentro, o objeto escolhido também e a gente vai fotografá-lo neste meio termo. O que vai sair disto vai mesclar estas imagens com narrativas relacionadas a estas sensações das pequenas mudanças que vivemos na vida, que estou recolhendo das pequenas conversas que estamos tendo por aqui.

Cinthia.jpg

Cinthia escolheu essa boneca pra gente fazer a fotografia dentro do riachinho que hoje estava dessa cor por causa da abundância de chuva. quem tirou a foto foi o Ricardo

Nós estamos perto da divisa entra Minas e Rio de Janeiro. Metade do dia faz sol, metade faz chuva. Antes de vir pra cá eu fui até a divisa entre o Brasil e o Uruguai. Nem sempre a gente busca equilíbrio, mas de vez em quando é bom. Metade cheio, metade vazio. Metade poça escura, metade rua. Metade correnteza, metade profundeza. Metade dia, metade rio. Metade cheio metade vazio (nem tanto ao mar nem tanto a terra)

--Mayra 17h20min de 19 de janeiro de 2012 (BRST)

Pequeno sonho para Cinthia anotar

as águas que passam por aqui acordavam límpidas novamente quando eu acordava...