Fernanda Gomes

De nuvem
Ir para: navegação, pesquisa

http://www.infernanda.art.br/

http://vimeo.com/user5306224



MINHA PROPOSTA PARA A NUVEM

Minha proposta consiste em passar por processos de imersão, criação, intervenção e performance nas paisagens da região onde está a residência, gerando pequenos acontecimentos poéticos e coloridos que serão registrados e compartilhados com os outros residentes.

As intervenções e performances terão um caráter efêmero e vão explorar os micro e macro universos da região, adicionando cores e gestos aos movimentos e composições naturais. Em uma etapa anterior à residência, passarei por um processo de pesquisa e compra de materiais coloridos que serão utilizados nas intervenções e performances: tecidos, fitas, papéis, botões e objetos que poderão entrar em composição com elementos da natureza.

Pretendo utilizar os métodos desenvolvidos pelo artista finlandês Eero Tapio Vuori, que implicam no desenvolvimento de trajetos sensoriais, dentro do conceito de “Experimance”, que implica na fusão entre a experiência e a performance. Os outros participantes da residência serão convocados a percorrer estes trajetos, revivendo as experiências e sensações que eu mesma passei durante o processo de imersão.

Trago como inspiração o vídeo “Quarta feira de Cinzas”, de Cao Guimarães e Rivane Neuenschwander. O vídeo revela um pequeno universo poético: formigas carregando confetes coloridos.

RN Quarta-feira still 03.jpg


DE ONDE VEM O MEU INTERESSE EM PARTICIPAR DA RESIDÊNCIA

Nos meus últimos trabalhos – “Horizontes Invisíveis”, “Todo mundo sabe dançar” e “Cores Vivas Para Tempos Mortos” procurei estimular a experimentação e o hibridismo entre a performance, a intervenção, o documentário e a instalação interativa em espaços urbanos. Fui percebendo uma vontade crescente em explorar mais o aspecto performático em minhas propostas. A residência de verão da Nuvem vai ao encontro dessa vontade e de uma busca por processos de experimentações subjetivas, assim como de uma vontade de entrar em estados de imersão em paisagens naturais e disparar processos de criações. As intervenções e performances serão registradas em foto e vídeo. A ideia é tanto estabelecer parcerias de criação, produção e registro com os outros residentes, quanto compartilhar este material durante os dias de residência.


ANTES DA RESIDÊNCIA

“(…) A procura da leveza como reação ao peso de viver”. Ítalo Calvino - Seis Propostas Para o Próximo Milênio

2013 foi um ano estranho. Depois de alguns anos de produção artística contínua, passei por um duro processo de finalizações que levaram a um momento de pausa. Passei o ano inteiro sem produzir nada de novo. Ao mesmo tempo, já sabia que o ciclo seguinte seria marcado por muitos aprendizados e reinvenções. E a necessidade de novas experimentações foi se intensificando com a chegada de dezembro. Uma das minhas últimas decisões do ano foi enviar uma proposta para a residência de verão da Nuvem. Algo que parecia muito coerente com minhas novas demandas e projeções de vida. Após receber a notícia de que havia sido selecionada para participar da residência no período de 18 a 25 de janeiro, entrei em um rico processo de preparação interna e externa. Internamente reforcei minha busca pela leveza como principal orientação de vida, como principal guia para as minhas escolhas. E de forma mais pragmática fiz duas incursões ao Saara para comprar o material que seria utilizado em minhas experiências artísticas: fitas, balões, pigmentos... Comecei a ver este período como um grande ritual de passagem. Transição para uma vida renovada, marcada pela leveza, pelos encontros, por momentos, pessoas e lugares inspiradores. Estes dias seriam dedicados à trocas, imersões, reflexões, novas perspectivas e experiências, principalmente a partir da convivência com os outros artistas participantes, imersa em um ambiente marcado por movimentos, sons, cheiros e paisagens naturais. Mais perto do que é essencial.



PRIMEIRO DIA - 18 DE JANEIRO

“ As imagens de leveza que procuro não deverão deixar-se dissolver como sonhos pela realidade do presente e do futuro”. Ítalo Calvino - Seis Propostas Para o Próximo Milênio

O encantamento pelo lugar foi instantâneo, principalmente após passar quase duas horas percorrendo uma estrada repleta de paisagens que muito ultrapassavam as minhas melhores expectativas do cenário que me aguardava. A chegada no sítio foi marcada por muita sensação de familiaridade. A primeira incursão pela região foi feita com Nathalia, a Índia Papa Goiaba, com quem conheci o sítio do Toninho, onde são criados cogumelos e cabras e o supermercado do Itamar, um verdadeiro Carrefour para a região. A volta para o sítio foi debaixo de chuva e por cima da lama. Primeira experiência revigorante. O jantar foi preparado coletivamente, em meio às primeiras trocas da temporada.


SEGUNDO DIA - 19 DE JANEIRO

“(…) Deve-se ser leve como o pássaro e não como a pena”. Ítalo Calvino - Seis Propostas Para o Próximo Milênio

O dia já começou bem leve. Café da manhã coletivo, banho no riacho. Sentada no jardim, cercada por insetos coloridos, pássaros, vários tipos de plantas em seus movimentos ritmados pelo vento, o som da água correndo… passei pelo meu primeiro processo de criação, definição de ideias e preparação de uma espécie de cronograma, de uma sequenciação das minhas ações neste período. Constatei que minhas ações fariam parte de um grande ritual que consolidaria o meu processo de reinvenção. Após este ritual eu passaria a ser uma pessoa mais leve, em sintonia com minha essência, minha feminilidade, minha relação íntima e equilibrada com meus fluxos internos.


TERCEIRO DIA - 20 DE JANEIRO

“Nas teorias de Newton, o que excita a imaginação literária não será o condicionamento de todas as coisas e pessoas à fatalidade do seu próprio peso, mas sim o equilíbrio de forças que permite aos corpos celestes pairar no espaço”. Ítalo Calvino – Seis Propostas Para o Próximo Milênio

No terceiro dia de residência já me sentia em sintonia com os elementos, ritmos e pessoas que faziam parte dessa experiência. Também já sabia de forma mais clara como seriam os fragmentos do meu ritual de passagem. A primeira parte do ritual seria marcada por um oferecimento leve para a natureza: balões entrariam em composição com a água, o vento, as pedras, folhas, insetos e elementos dos arredores do riacho. Fiz os testes com o balões e escolhi usar somente os brancos, que seriam amarrados com fios de nylon a pregos que seriam fixados na areia do riacho. O objetivo era produzir uma imagem de leveza, a partir do peso que a sustentaria. O processo de realização da intervenção foi marcado por um estado meditativo, para reforçar sua força ritualística.


QUARTO DIA - 21 DE JANEIRO

“No saber antigo, o microcosmos e o macrocosmos se refletem nas correspondências entre a psicologia e a astrologia, entre humores, temperamentos, planetas e constelações”. Ítalo Calvino – Seis Propostas Para o Próximo Milênio

No quarto dia segui minha imersão no jardim, percebendo as imagens e os sons produzidos pelos elementos naturais ao meu redor – pássaros, insetos, o riacho, o vento… No meu “escritório” produzi a segunda intervenção, que entraria em composição com os balões brancos no riacho. Cortei várias fitas coloridas que foram penduradas em troncos de árvores na beira do riacho. Enquanto ia pendurando as fitas, pensei que aquele ritual poderia ser uma oferenda para Oxum, poderosa protetora dos rios e da natureza feminina. Nesse momento Nathalia chegou, segurando uma caneca de vinho e gritou: _ Mamãe Oxum! Nathalia ainda observou que eu usava um vestido amarelo, a cor preferida de Oxum. Uma coincidência repleta de poder.


QUINTO DIA - 22 DE JANEIRO

“Digamos que há diversos elementos que concorrem para formar a parte visual da imaginação: a observação direta do mundo real, a transfiguração fantasmática e onírica, o mundo figurativo transmitido pela cultura aos seus vários níveis e um processo de abstração, condensação e interiorização da experiência sensível, de importância decisiva tanto na visualização comona verbalização do pensamento”. Ítalo Calvino – Seis Propostas Para o Próximo Milênio

O quinto dia começou com um café da manhã no jardim e com a presença de Mel, companhia chave do dia. Em seguida, retirei os balões do riacho e deixei somente as fitas para Oxum. Avancei no processo de configuração da performance do vestido branco (ainda sem nome). E consegui seguir na organização das fotos e dos textos deste período. O ponto máximo foi o passeio com Mel, que me acompanhou até o mercado, mesmo debaixo de chuva. Não teve como não deixar registrado o passeio...


SEXTO DIA - 23 DE JANEIRO

“A mente do poeta, assim como em certos momentos decisivos a mente do cientista, funcionam de acordo com um procedimento de associações de imagens que é o sistema mais rápido de associar e escolher as infinitas formas do possível e do impossível”. Ítalo Calvino – Seis Propostas Para o Próximo Milênio

No sexto dia tentei fazer a performance do vestido, mas começou a chover mais cedo e tive que adiá-la para o dia seguinte. Então “desmontei” a oferenda para Oxum, brinquei um pouco com a Mel no jardim e me dediquei à minha leitura do livro “Seis Propostas Para o Próximo Milênio”, de Ítalo Calvino, que vem me acompanhando nesta residência. Refleti bastante sobre a minha última ação na residência. Entendi porque ainda não fiz a performance. Foi necessário um processo de amadurecimento e configuração. O mais importante é respeitar os ritmos e o fluir do tempo na residência. Alternar momentos mais intimistas, a maioria em contato com a natureza, com momentos de cuidado da casa, momentos de leitura, escrita, interações com os outros residentes, criação, produção e realização das minhas propostas.


SÉTIMO DIA - 24 DE JANEIRO

“Se incluí a visibilidade na minha lista de valores a salvar, é para advertir do perigo que corremos de perder uma faculdade humana fundamental: o poder de focar visões de olhos fechados (…)” Ítalo Calvino - Seis Propostas Para o Próximo Milênio

Acordei em sintonia com o ritual que venho preparando nos últimos dias. Entendi com muita clareza o tempo e os processos que me levaram até ele. O dia amanheceu com o céu muito limpo, sem nuvens. A chuva parecia distante. Leandra, Victoria e Taís aceitaram participar. E Cínthia faria os registros. Após o café, comecei a preparar a minha ação. Preparei os potinhos com anilina e açúcar colorido e os posicionei no local escolhido para este ritual artístico. Depois coloquei meu vestido branco, que havia passado os últimos dias pendurado no varal, tomando sol, chuva, vento e sereno, sendo visitado por formigas, abelhas, borboletas e cigarras. Em seguida, deitei-me na grama, fechei os olhos e as meninas começaram a improvisar com as cores dos potinhos, desenhando formas no meu corpo. Entrei em um estado meditativo, em sintonia com os elementos à minha volta, em especial aos sons – o riacho, o rio, os insetos, pássaros e os risos delicados das minhas companheiras de performance. Seus toques leves despertavam imagens em minha mente. Eu tentava de alguma forma vislumbrar as cores e formas que estavam se delineando. Elas ficaram um bom tempo envolvidas na atividade, com toda a leveza necessária para o seu andamento. Enquanto isso, eu me entreguei como oferenda, projetando maravilhas para mim e para aquelas pessoas que estavam me dando de presente o seu tempo e os seus gestos, concretizados em caminhos de cores. De forma silenciosa elas me deixaram com o entorno. Segui mais um tempo naquele estado. E então, de forma bem natural, abri os olhos, sentei-me, levantei-me, tirei o vestido e finalmente visualizei o resultado final daquele momento ritualizado, que tanto imaginei, de olhos fechados, enquanto sentia os toques leves das meninas. Achei tão bonito… Pendurei o vestido no varal, para ficar em exposição até o dia seguinte. Depois entrei no riacho, em total sintonia com os elementos e entidades da natureza, em especial com Oxum, que se apresentou de forma tão forte durante estes dias. Saí com a alma mais leve e colorida. O sentimento agora é uma mistura de leveza, felicidade e comprometimento. Enquanto escrevo este relato, estou no jardim, local escolhido para viver de forma leve e intensa os meus processos de imersão, criação, produção e realização, que me levaram a concretizar três ações durante os meus dias de residência. Mel acaba de chegar para acrescentar um pouco mais de doçura a este momento. Após toda a experiência, me deitei novamente na grama e entrei novamente em um estado de quase meditação, estimulado principalmente pelo som da água do riacho correndo.


OITAVO DIA - 25 DE JANEIRO

“(…) Penso numa possível pedagogia da imaginação que habitue cada um a controlar a sua própria visão interior sem a sufocar e por outro lado sem a deixar cair num confuso e passageiro fantasiar, mas permitindo que as imagens se cristalizem numa forma bem definida, memorável, auto suficiente”. Ítalo Calvino - Seis Propostas Para o Próximo Milênio

O vestido amanheceu bem diferente, depois de tomar chuva, sol e sereno. As cores estavam diluídas. Então novamente o vesti e fui até o riacho, para tomar o meu último banho. A água levou o resto das cores com ela. Foi então que Mel apareceu para me acompanhar neste momento final da ação. Agradeci muito e então me retirei. Organizei as últimas fotos e vídeos. Vou voltar mais leve para o Rio em todos os sentidos. Feliz após todo o processo. Feliz por ter me preparado para este período, por ter me comprometido e me envolvido de verdade com esta residência.