Tecnoxamanismo

De nuvem
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“You can take away a man’s gods, but only to give him others in return.” Carl Jung


“Buzinas. O cidadão está preso em seu trânsito pensando na próxima viagem que irá fazer daqui a dois meses, quando tirar suas férias de um ano de serviço. Pensa talvez em ir para o Rio de Janeiro de avião, mas também pensa em guardar o dinheiro para comprar quem sabe uma camiseta de marca feita por alguma mão de obra escrava, ou trocar de tênis, apesar dos seus estarem em bom estado. Atualmente ele guarda um pouco do seu dinheiro para a reforma da casa, um bip, o carro está parado por causa do trânsito caótico de fim de tarde, ele atende o celular e fala com sua namorada sem dar muita importância, olhando para as luzes de freio do carro a frente, que parece ser importado, um modelo do ano que vem. Apesar de explodirem átomos em ambientes hermeticamente fechados, a qualidade de comunicação entre os dois beira a inexistência. Outdoors com propagandas de perfume, o amargo cheiro de fuligem por dentro de suas ventas, fecha a janela e liga o ar condicionado, para que o ambiente inóspito que ele causou não o incomode. Condicionado para que o morador de rua e o hippie vendendo sua arte não o atrapalhem em sua redoma de status de cidadão bem moldado. Condicionado.”


Saímos do chão com folhas, das árvores com suas frutas, do ventre perene da mãe Terra para criarmos o nosso mundo, feito de concreto e bombardeios de ondas eletromagnéticas de todas as frequências possiveis. Foi montado de modo arquitetônico, sem precauções e esquecendo do rumo onde isso iria nos levar. O racional funcionando para o objetivo, o “funcional” do comércio. O que der mais lucro e mais papel-moeda para trocar por mais itens, melhor. Vivemos por tempo suficiente para poder enfrentar problemas que nunca imaginaríamos que sermos capazes de criar. A automação do bicho homem fez com que ele propagandeasse a ideia de que não, não somos animais como todos os outros milhões que existem nesse mundo. Nos isolamos, bichos que tinham um senso de comunidade fortíssimo e capacidade de produção semântica infinita arrebatados para grandes colméias de aço retorcido com a oferta de uma qualidade de vida dúbia e pré-moldada. Infelizmente, uma sociedade que se diz globalizada nunca compartilhou tanto de seus preconceitos, com tantas alfândegas criadas por empresas que controlam o direito à informação, escondendo de suas faces os mundos que elas poderiam conhecer. O preto-e-branco, sem escala de cinza e longe das cores fortes. Tudo isso não é fundamentado na falta de fé das pessoas, de que elas morreram para sua essência animal e que nunca mais serão os mesmos. Triste engano, pois sua condição inata de ser que sonha com o etéreo e o que é fisicamente e racionalmente impossível nunca morrerá, apesar de tão afogado em ilusões. A Atena de antigamente, representando o conhecimento, agora virou um branding de roupas. Os heróis que representavam a superação de seus medos psicológicos viraram perfumes de grife, atraindo seus consumidores com imagens paradisiacas de um mundo que eles sabem que nunca irão chegar. Enquanto isso, no auge do terceiro milênio, nessa época de homem pós-moderno, nossos deuses foram trocados ou apenas mudaram de roupagem. O ideal mítico ainda é perseguido por muitos que recusam o status-quo, muitos conseguem enxergar em seu herói de videogame qualidades que gostaria de ter, encontrar no antagonista de seu livro recém lido características e escolhas que sabe muito bem que não os faria diferente, uma meta-programação psicológica, o que hoje infelizmente acaba sendo encarada como uma contra-cultura, sendo a falta de ideal mítico e profundo dado como conhecimento de várzea, apenas marginal. Apesar do condicionamento de Pavlov a tantos e a sectarização entre dois opostos que não se completam, muitos se aproveitaram dessas brechas de comunicação para hackear princípios e achar o código-fonte da essência humana, conhecimentos que jamais alcançariam caso morassem no centro de sua megalópole sem a Internet ou em um monastério (apesar de que seu conhecimento dado por sua experiência própria talvez o levasse a um caminho similar).

Agora, existem muitos que acessaram a cor dentro desses padrões, aqueles que sonham e manipular esses bits para dar vida aos deuses antigos e bota-los nesse espaço adimensional para que nos encontre novamente, induzidos por músicas, drogas ou apenas muita introspecção.

Chamem de deus uma experiência única ou o poder de modificação interior, tais caminhos são sempre únicos e excepcionais ao observador, dando-o o poder de comunicar e passar o pouco do que presenciou aos próximos. Métodos e regras simples estão voltando a serem criadas, mesmo que sejam apenas para dar leve orientação. O conhecimento de povos indíginas que alcançaram sua estabilidade quanto a união social e realização própria tem que ser muito respeitada por ter contribuido tanto por exercer alicerce de união e estabilidade, nos dando muito o que aprender com seus xamãs, “aqueles que rompem o tecido do real e vêem através dele”, em auxilio a ferramentas digitais. Não é possivel chegar a uma experiência sem ter um básico de conhecimento tecnológico de nossa era e de culturas passadas, portanto cada caminho tem que ser construido e desmontado diversas vezes, pois assim como um rio, o conhecimento de tais experiências são metamorfas. Portanto, seria bom relembrar que evolução ou o nosso retorno à nunca vem da permanência do status-quo. Muito daquilo que era chamado magia virou realidade, sendo através de um brinquedo de chips ou não. O poder de modificação vem graças o que é chamado de magia, experiências que apenas através de métodos divinatórios e não racionais e consciêntes são capazes de nos mostrar.

Temos então uma época em que teremos que criar uma sinergia entre os nossos cocares digitais com suas partes montadas de países de todo o mundo, com o que um dia foram conversas em volta da fogueira em um novo modo de pensar e imaginar. Presenciamos um tempo novo de vida e de capacidades, principalmente contra a normalidade e o nosso condicionamento. Há realidade por trás dessas telas, basta procurá-las.