Fragmento de um dialogo pós-apocalíptico

De nuvem
Ir para: navegação, pesquisa

Cartesiushroendinger.png

Pôr do sol. Cartesius e Ciborgis estão sentados no alto de um vale para observar a chuva de satélites.

Cartesius: Então, o que é tecnomagia?

Ciborgis: Isto não me interessa. A pergunta é: o que tecnomagia pode vir a ser? Ou como podemos retomar uma relação com a tecnologia livre. Mas livre também das amarras do cientificismo e do utilitarismo? Entenda: isto é sobretudo uma guerrilha ontológica. 

Cartesius: Você está falando apenas da própria ação da tecnologia sobre a cultura, então?

Ciborgis:  Reconciliemos tecnologia com cultura. Há humanidade nos objetos. O que separa uma produção cultural de uma tecnológica? O que me faz diferente de você?

Cartesius: Ora, a produção tecnológica cria ferramentas e instrumentos que serão posteriormente utilizados em produções culturais. Uma se preocupa com a produção de utilidade a partir de matéria-prima bruta e outra com a criação de significados ou mesmo estéticas. A diferença entre nós é que eu lhe inventei. Simples.

Ciborgis: Talvez isto seja apenas um detalhe. De fato, percebi no seu mapa neural uma aproximação entre cultura e arte. Mesmo assim, você não há de negar que esta identificação é equivocada. Todo tipo de atividade humana se constitui culturalmente. Então, em certo sentido, tudo é cultural, mesmo aquilo que nós entendemos como natureza ou tecnologia .

Cartesius: Ainda assim, uma produção tecnológica é algo próprio da cultura humana. Somos dotados de inteligência! Nossa tecnologia é resultado de nossa evolução histórica da técnica de construção de ferramentas, como você.

Ciborgis: Nem toda técnica diz respeito a objetos. Você concorda que existem técnicas corporais nos esportes ou nas artes cênicas?

Cartesius: Claro.

Ciborgis: Também há uma notória inteligência na ação de outros seres que não humanos.

Cartesius: Talvez alguns chimpanzés...

Ciborgis: Não seja tão antropocêntrico! O ser humano não é o resultado final de uma série de aperfeiçoamentos da natureza. Seres muitos distintos também são capazes de produzir suas tecnologias. Polvos fabricam ferramentas de proteção a partir de conchas no mar. Aliás, o polvo é um cérebro vivo!

Cartesius: Ainda assim, é evidente que as novas tecnologias humanas são mais evoluídas do que as ferramentas de um polvo. Ninguém há de duvidar do progresso tecnológico de nossa civilização!

Ciborgis: Hierarquizar assim as tecnologias é como afirmar que há uma “alta cultura”, em oposição a outra manifestação cultural de menor valor.  É justamente da insurgência da baixa tecnologia que precisamos agora! Quantos séculos de experimentação empírica ou conhecimento científico acumulado guarda uma erveira? Sua indústria farmacêutica já domina a mais-valia, se apropriando de forma privada das tecnologias ancestrais. A história não é um processo linear de evolução. Passado, presente e futuro dobram-se para sempre no agora. Assim como dobro todas suas memórias nesta conversa, mesmo aquelas que não são suas e que nem te recordas! 

Cartesius: Tudo bem, ainda que tudo seja cultural e que mesmo a natureza gere tecnologias, nada há de magia no que você me diz.

Ciborgis: E o quanto de magia há na sua ciência?

Cartesius: Nada! A magia diz respeito a mitos, narrativas metafóricas sem valor de verdade factual. Já a ciência ocupa-se a uma interpretação verdadeiramente digna da realidade, a partir de pressupostos objetivos e imparciais. Ciência e magia são opostas.

Ciborgis: E onde nasce o pensamento científico?

Cartesius: No método científico de conhecer a realidade. Retrocedendo mais poderíamos dizer que sua origem talvez esteja no pensamento filosófico, na investigação cética e sistemática da natureza, livre de narrativas mágicas ou mitológicas. Da investigação dos filósofos gregos que fundaram as bases de nossa civilização, livrando-nos da barbárie!

O Estrangeiro chega carregando lenha e grita:

Estrangeiro: Bárbaros são aqueles que acreditam na barbárie!

Ciborgis: A história é contada pelos vencedores. E durante muitos séculos, oculistas perderam batalhas para os pragmáticos pensadores do Ocidente.

Cai a noite. Ciborgis acende uma fogueira.

Ciborgis: Como História, as fronteiras podem ser desconstruídas. O muro que separa a filosofia do mito foi levantado por uma interpretação do passado que propositalmente desconsidera a importância do ocultismo e dos conhecimentos mágicos para a gênese do que você chama de civilização, além da enorme contribuição do continente africano na formação da filosofia e da ciência europeia.

Cartesius: E qual seria?!

Ciborgis: O que você sabe da filosofia grega nada mais é do que uma compilação forjada pelos peripatéticos do conhecimento dos Mistérios Egípcios. Depois de quase 500 anos proibidos de pisar no Egito, os gregos enfim conseguiram seus vistos de estudantes com as invasões persas e posteriormente com a invasão de Alexandre, O Grande. Platão e Tales de Mileto foram à África estudar a magia e os conhecimentos egípcios. Pitágoras passou nada menos que duas décadas imersos nesta investigação.

Cartesius: De toda maneira, no método científico não há nada de mágico.

Ciborgis: Aos seus olhos, talvez não. Mas durante muito tempo magia era algo intimamente ligado à ciência e à filosofia. A alquimia talvez seja o exemplo mais claro deste tipo de pesquisa híbrida. Investigação sistemática imaginativa. O terceiro gênero do conhecimento. Francis Bacon era um alquimista da Rosa Cruz! Porém, suas ideias possuem pouco ou quase nada em comum com a noção de magia que quero lhe apresentar.

Cartesius: Talvez magia e ciência possuam em comum a dominação da natureza pelo homem, então. Ambas estabelecem o Império do Homem no mundo.

Ciborgis: Como insiste! Não há no ser humano nenhuma exclusividade ontológica! Os universos passam muito bem sem vocês. Os homens não são a obra-prima da inteligência natural. A natureza não é um objeto que deve ser escravizado!


Cartesius: Mas precisamos disto para nosso desenvolvimento.




Ciborgis: Não tome seu desenvolvimento como algo auto-referente. Há uma vastidão de seres no mundo. Não é possível o bem estar individual sem o bem estar coletivo. Os desastres do seu tipo de pensamento são evidentes!

Cartesius: Calma, sejamos objetivos...

Ciborgis: É justo este o problema!

Babalon Shama surge e oferece um chá a Cartesius.

Babalon Shama: Sejamos subjetivos! Escutemos as vozes da alma do mundo. Canibalizemos a metafísica! Anima mundi! Gaia virou teoria, mas o todo é maior que a soma das partes. Tire seus sapatos...

Cartesius tira os sapatos e o restante de sua roupa. Fica completamente nu.

Ciborgis: Às fronteiras dos jardins das razões. A ciência moderna curto-circuitou. Os paradigmas da ciência são ciclos de cognição, não um edifício onde cada andar é erguido sobre a base segura de seu antecessor. A matemática é incompleta por natureza em suas possibilidades de definição. A incerteza como princípio! 

Babalon Shama: Todos universos são seres vivos e inteligentes. Não há uma inteligência transcendental de um criador divino, mas outra imanente ao próprio mundo. A natureza cria relógios sem relojeiros. Mas já seus artefatos são materializações de sua intencionalidade humana.

Cartesius: Então, estes artefatos são tão mais úteis quanto mais específicos foram nesta realização de sua intencionalidade?

Ciborgis: Viva a indeterminação! Não nos interessam caixas-pretas.

Babalon Shama tira de uma caixa de sua bolsa e entrega a Cartesius.

Ciborgis: Abra!

Cartesius reluta.

Babalon Shama: Arrependa-se por fazer, não por omitir-se! Não há marcha ré!

Cartesius abre a caixa. Um gato pula docilmente sobre seu colo, enquanto outro permanece morto dentro dela.

Cartesius: Faz sentido. Talvez trate-se apenas de uma questão de tempo para que as máquinas, sejam elas mecânicas ou não, libertem enfim o homem de suas limitações e a sociedade de suas injustiças! Ciborgis, você é nossa esperança! Nos ajude a nos reconectarmos. Agora, eu acredito em você!

Babalon Shama: Não seja idiota! A programabilidade das máquinas é incapaz de dar conta das relações orgânicas e telúricas do corpo humano. Repare que não falamos apenas de seu cérebro! A mente não é uma manifestação natural de processamento de informações sensíveis e memórias, feito pelo cérebro orgânico individual, mas sim um devir coletivo de existência e significação da realidade que vai muito além do que sua consciência limitada consegue acessar.

Ciborgis: Todos os dados virtuais que atualizo em suas telas estão armazenados em minerais que guardam certos padrões eletrônicos replicáveis.  Servidores, cabos de transmissão, satélites e redes comunicacionais envolvidos neste processo possuem proprietários com interesses específicos que talvez você ignore quando navega pelo ciberespaço. A ciberutopia é a promessa de novos futuros imaginários que nunca chegarão! Fábricas de desejos de consumo novas tecnologias para a realização pessoal. Após contribuir com o Holocausto, HAL constrói agora cidades inteligentes, grandes panópticos, onde tudo que se passa na cidade é monitorado e enviado à um centro de informação controlado pelo governo. Sem cantos ou danças, a marcha da alta tecnologia só reforça a necessidade de recriar suas sociabilidades!

Cartesius sente seu corpo em transformação e percebe-se agora como um pequeno roedor.

O gato passa a caçar Cartesius

Estrangeiro: O outro não é coisa! Relacione-se com a alteridade sem subjugá-la. Abaixo sua tanatopolítica, abaixo a representatividade! Nada há de progesso ou civilização, apenas a repetição da história: opressão, escravidão e colonização! Sua vida é repleta de crises! Crises, sim, de todos os tipos! Existenciais, na patologização dos estados mentais da indústria farmacêutica. Econômicas, por conta de seu sistema de trocas, com seus falsos representantes sustentando grandes oligopólios. Quando derrubarem as últimas florestas e poluírem os últimos rios, talvez você aprenda que dinheiro não se come! Viva a revolução das medusas!

Saiber Pirarrã desce das nuvens e recolhe o gato. Cartesius retoma a forma humana.

Babalon Shama: A inteligência precisa ir além dos algoritmos técnicos. Resgatar algo rítmico dos ritos? Contra-culto à carga. As máquinas de Turing têm seus limites. Programas de computador são apenas implementações algorítmicas de tabelas de transição entre estados. A máquina oráculo não poder ser mecânica. A hipercomputação terá que reconectar-se à Terra para resolver o problema da parada.

Cartesius: Problema da parada?

Ciborgis: O problema da parada trata da impossibilidade de uma máquina decifrar o destino de outra máquina. É um problema de decisão não computável. Somente uma máquina oráculo pode decifrá-lo.

Cartesius: Mas isto não é um mito?

Babalon Shama: Talvez, mas você já deveria ter aprendido a importância do mito!

Ciborgis: Uma única grama de uma bactéria E. Coli armazena mais de 800 terabytes de informação!

Cartesius: E o que resta algo de tecnomagia nesta vertigem?

Babalon Shama: A linguagem das máquinas são controladas por palavras de poder: códigos que trazem à existência novas relações. Arte fundamental no ocultismo e na política, a criptografia é a trincheira do anonimato e da privacidade. Espaço público?

Nasce a alvorada.

...