Antropologia das sociedades encantadas

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Antropologia das sociedades encantadas

                                                                              Thaís Brito


parte I [descarte]

A ciência cartesiana e sua pretensão de universalidade e racionalidade se não é completa, nem convence a todos na sua tentativa de integração, é território sólido de conceitos e explicações sobre o mundo. O corte cartesiano que divide consciência e matéria, teoria e prática, orienta a ciência e a racionalidade hodierna. Enquanto tudo o que não cabe na caixa preta da ciência é proscrito do mundo racional, permanecem pensamentos e imaginários desorientadores dessa racionalidade em pequenos cotidianos [1] urbanos e, mais intensamente, aldeias em recônditos globais.

A magia desafia – ou desdenha e desconhece – a certeza autoproclamada da ciência como racionalidade única e final. Com os índios, aprende-se que essa separação entre teoria e prática, magia e técnica é, por si mesma, invenção, sustentada e superável. A distância entre compreensões de mundo é expressa na fala do cacique kuikuro Afukaká depois de relatar a um antropólogo o mito de origem do seu povo: “Eu sei que você não acredita em minha história, conte-me a sua.”

Os indígenas, quando se deparam com inventos mágicos como o computador ou o cinema, criam novas conexões e significados. Da mesma forma, nos maravilhamos com suas tecnologias de contato e magia, com a cura dos xamãs. Povos que tem suas ciências. O maracá, acelerador de partículas, é o celular de Nhanderú, a comunicação com o mistério. A magia é o que permite a circulação entre o visível e o invisível. Narrativas sobre o contato são, também, povoadas de explicações mágicas. Nas palavras de um kuikuro: Mas depois começaram as mortes, chegaram as doenças/feitiços (kugihe). Nós ficamos poucos. Na época em que vieram os caraíba, eles trouxeram as doenças/feitiços, eles, os antigos, os donos do feitiço. As flechas/feitiço voaram. Morreram muitos.” (Franchetto, 2001, p. 104)

As tecnologias de comunicação chegam às aldeias no rastro desse imaginário, absurdamente concreto.

As narrativas que se seguem a partir do contato com os yawalapiti e kiriri pouco dizem sobre os índios, é uma antropologia encantada pelo contato com eles através da imagem.

parte II [ kiriri ]

Quando cheguei pela primeira vez à aldeia kiriri, atravessei o sertão da Bahia, sob o sol, peguei uma estrada de chão e cheguei em Mirandela, terra dos índios kiriri. Fui recebida, no telecentro empoeirado, pelo amigo Marcelo Kiriri, que nos hospedou em sua casa. Era nosso primeiro contato com aquela coisa – o computador – e essas pessoas – os índios kiriri. Partimos para o exercício de leitura crítica com uma pergunta ao tuxáua google sobre o que havia ali nesse pequeno vasto mundo sobre os índios kiriri. Teses, imagens, verbetes, vídeos, muita mídia. Inclusive mídia indígena. O desafio foi fazer uma leitura (audiovisual) desse conteúdo. Os indígenas diziam conhecer muitos dos pesquisadores, jornalistas, autores; conheciam 'os outros' que compõem por aí a imagem do que são (somos), mas incomodavam-se com o retorno ausente e de desconhecerem o destino dos 'dados', onde vão parar suas narrativas, suas imagens... Muita discussão e inquietação a descoberta causou em todos nós. Quem seriam essas pessoas e onde chegamos através delas. Estou de volta à Aldeia Mirandela, seis anos depois, para participar da instalação da Rádio Kiriri FM e sou recebida pelo agora Cacique Marcelo Kiriri, que nos acolhe em sua casa novamente. No telecentro, agora funciona também a rádio indígena, que é muito legal! Pelas publicações de imagens, textos, áudios na internet, sou questionada por um jovem indígena sobre os direitos autorais da imagem dele que circula na internet junto com a notícia da nova rádio indígena dos kiriri. Quantas pessoas já viram essa imagem?


parte III [yawalapiti]

Para encontrar os yawalapiti, fomos em direção ao Xingu. Chegamos de longe, muitas cidades. Ponto de encontro, Brasília. Seguimos na viação Xavante, em sete pessoas.

Sensação de estar indo ao encontro do que é e não será mais em pouco tempo. O sol em muitos tons de vermelho nas primeiras horas da manhã parece uma passagem atravessada no meio da poeira do nosso rastro.

Chegamos pela Aldeia Paraíso e logo alcançamos o rio Xingu, onde nos aguardava um barco, guiado por um jovem índio e seu filho pequeno. O barco é uma das tecnologias de comunicação adquiridos pelo Ponto de Cultura da aldeia e funciona com um motor que tornou um pouco mais rápida nossa chegada, depois de uma viagem que já estava para completar três dias na estrada, entre terra, ar e água.

No contato com os indígenas, atualizamos nossa ideia de internet, rede e sociedade. Ali, vimos que as redes eram mesmo sociais. Amarramos cinco delas num mesmo tronco suspenso, apoiado nos alicerces da grande oca, construída pelo arquiteto da aldeia que compartilha sua ciência em aulas de arquitetura xinguana na Universidade de Brasília. Além das nossas redes, tinha outras tantas espalhadas pelo espaço da oca. Se alguém se mexia em sua rede, todos balançavam...

Estávamos na aldeia como convidados dos índios yawalapiti para colaborar no uso do equipamentos multimídia que vieram com o Pontão através do Ministério da Cultura. A primeira tentativa de aproximação foi abrir a caixa-preta e, ao mesmo tempo em que mexíamos nos fios e placas, fomos desempacotando os equipamentos de áudio e as câmeras que foram de imediato para as mãos dos índios e índias.

A duração dessa diversão era medida pelo tempo do gerador de energia, que ritmava nosso encontro. E, entre uma queda e outra, um mergulho no rio.

Em algum momento das oficinas, sugerimos a divisão entre linguagens específicas de áudio, vídeo, edição gráfica e o se joga na rede, com os primeiros passos para usuários de internet. Fico um pouco surpresa por todas as mulheres se decidirem pela oficina que eu iria realizar na aldeia. Era a de edição gráfica, mas tive a impressão que elas se decidiram com base não apenas no desejo de bricolar imagens, parece que havia algo que as deixaram mais à vontade.

Cheguei com a ideia de produzir pequenos postais, com imagens, grafias, histórias e mensagens sobre o Xingu, ou em torno das ameças de destruição que vem com os grandes projetos como Belo Monte. Pretensão minha pensar no produto, quando o processo em torno desse contato tem gerado mais aprendizado e possibilidades... Essa ideia dos postais não deu certo. Mas criamos outras formas de interação. Antes de pensar o que aquilo geraria, tivemos que encontrar uma forma de nos comunicar. As índias não falavam português.

Com a ajuda de um intérprete kamayurá, conseguimos algum diálogo. O ponto alto do nosso entendimento foi relacionar o awëre, saudação positiva na língua do xingu, com a tecla enter. Mostrei algumas ferramentas simples de edição e a cada corte ou cor elas se viravam pra mim – Awëre?, e eu – Awëre!

Ainda como parte da oficina, elas escolheram um lugar para fazer as imagens que seriam editadas. Com a máquina fotográfica na mão, seguiram para a margem esquerda do rio num porto onde as mulheres costumam se banhar (separado apenas por uma pequena moita de onde costumam mergulhar os homens). Achei que tinham a intenção de fotografar o rio, a mata... mas chegando no rio, elas ficaram nuas e se atiraram na água. Não havia mais ninguém para mediar nossa linguagem, mas nos entendemos nesse instante. Numa experiência única de antropologia íntima, me despi e entrei na água com elas, mas parecia mais vestida que antes, pois só agora tínhamos as mesmas vestes. Foi então que a lente da câmera se voltou para mim. Naquele momento, senti que eu era o índio.

Nunca houve uma exposição dessas imagens, mas encontrei uma proximidade de sentidos na personagem Alma, de Darcy Ribeiro. Compartilho um trecho do livro para finalizar esse texto e abrir caminhos para pensar o diálogo entre a imagem e a magia.

Depois de uma hora, Alma está deitada numa esteira aberta no chão, rodeada de mulheres, nua em pêlo e abobalhada. Como não quer fugir, prefere rir, confraternizar com aquela gente que lhe sorri simpática, com malícia e carinho. Esconde, quanto pode, o vexame de se sentir invadida, desvendada, decifrada. Mas como reclamar que a queiram ver nua, se todas essas mulheres estão também peladas? Por que não se deixar ver e tocar por quem quer vê-la com tanto empenho, se elas se dão também à curiosidade de Alma, com seus corpos ali ofertados? (...) As grandes surpresas daquela lição de antropologia íntima são a pele limpa e lisa da planta dos pés, que encanta. (…).


] epílogo [ Esses relatos são realidades ficcionais, inspirados em experiências com tecnologias digitais e povos indígenas no Brasil.

Referências

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: Artes de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008 [1] FRANCHETTO, Bruna e HECKENBERGER, Michel (Org). Os Povos do Alto Xingu: história e cultura. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2001 LÉVI-STRAUSS, Claude. O Feiticeiro e sua magia. In: Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1996 RIBEIRO, Darcy. Maíra. São Paulo: Editora Civilização Brasileira, 1976