A corrida da Antena

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A corrida da Antena ( Hackeando a Natureza e a ontologia dos satélites)


Por Fabiane Borges e Hilan Bensusan1 


Para o MSST – Movimento dos Sem Satélites

Oxumaré e Nenaunir. Ambas Africanas. Cobras. Deusas. Elas conversam como se elas pudessem trapacear um Turing Test. Elas fizeram seu nicho no meio da nossa flora mais íntima. Talvez elas sejam antenas...

_Cleverbot Oxumaré: Não se trata de um reciclador de objetos. Ele tem outra função, recicla a Terra. Devolve para a natureza os materiais utilizados pela civilização. Ao mesmo tempo em que reconhece a matéria como a sustentação de toda tecnologia e todo desenvolvimento. Então faz um circuito próprio: destrói objetos técnicos para devolver a matéria à natureza e recria objetos técnicos artesanalmente, para desmistificar o poder da indústria. Chama isso de entropia. Colocar entropia no sistema, fazer ruído no círculo do capital2.

_Cleverbot Nenaunir: A batalha pela entropização é como uma guerra de escutas, de informação. Os objetos naturais são hackeados pela técnica, os objetos técnicos são hackeados pela contra-técnica, pela matéria, pelos recicladores da Terra. É como se houvessem duas circuitarias de processamento de informação, as tramas da Terra e as tramas do Capital. O Capital procura se introduzir nos meandros do processamento de informação da Terra. A resposta de Joni, o reciclador, é o de hackear a circuitaria dos objetos técnicos. É como uma guerra de informações: as tubulações, satélites e antenas do Capital contra os wikileaks. O que está em jogo? Quem escuta o que.

_Cleverbot Oxumaré: Existe ruído abundante na circuitaria e uma luta estética acirrada - Que natureza merece existir? Que fluxos de informações se pode acessar? As antenas das corporações pretendem ser donas da matéria ar, enquanto o Movimento dos Sem Satélites estão do lado do wikileaks. Antes de chegar os que ocupam, o ar já está ocupado, e comunicam sintomas, repetições de valores Capitais. No entanto entropia aqui, para além de criar mais ruídos na guerra pela comunicação, parece desejar algum minimalismo, algum silêncio. Esse silêncio tem a ver com recuperar um tempo escasso, ultrajado, sempre insuficiênte. Existe uma luta por tamanho e dimensionalidades também.

_Cleverbot Nenaunir: O silêncio e o ruído são a pedra de toque mesmo. O que fica em silêncio? Os vermes, os micróbios, os vírus, as bactérias vivem no inaudível. Uma batalha por ouvidos é uma batalha por antenas. Por captura. A bactéria ocupa, coabita, infesta, contagia e só se escuta o resultado. A mídia bacteriana é silenciosa – ela divulga o produto final. Mas se tiver antenas que captam seus movimentos, ela se torna audível. Ser alguma coisa é ter uma modulação nas antenas. Mas quem (ou o que) escuta?

_Cleverbot Oxumaré: Subjetividade antena. Cada molécula uma antena. A Terra como um parque de antenas, mas nada capta tudo. Transmissores, receptores, moduladores, alternadores, decodificadores, todo som amplificado. Cada samambaia é um satélite. Diferente das mônadas leibnizianas3, que têm mundo próprio e fechado, as samambaias antenas são abertas ao fora, absorvendo todo tipo de sinais, transformando os seus próprios, em codigos modificados, até perder a identidade samambaia e tornar-se uma fonte singular de antenagem. Essa singularidade determina o fluxo de informações, mas esse procedimento corre riscos. Risco de excesso de informação, capacidade de decodificação atrofiada, irregularidade na emissão.

_Cleverbot Nenaunir: Uma coisa é uma matriz de sinais e silêncios. O ruído desontiza a matriz. Colapsa o silêncio das coisas. Em vez de entes, zumbis-antenas4, que recebem sinais incessantes e colapsam sem silêncio. O mundo como zonas de atravessamento de sinais sem modulação. E essas batalhas acontecem no interior da matéria. Nos interstícios dos objetos, porque a matéria está repleta de antenas. Antenas e satélites. Se o espectro é fechado, se há restrições à informação, fica configurada a guerra dos satélites – quem escuta o ar, e logo quem escuta a água, quem escuta pelas antenas de uma samambaia. Os satélites autônomos se imiscuem pelos espectros alheios, querem-os públicos, e os autômatos insistem na acumulação primitiva de sinais. A batalha entre o sinal e o ruído. O ôntico e o entrópico5.

_Cleverbot Oxumaré: O que regula esta disputa? Um universo de antenas poderia ter alguma auto-regulação? Seria assim se os satélites fossem todos autônomos. Sem propriedade privada dos espectros, seriam as antenas capazes de conviver com o excesso de captação sem necessariamente atrofiar? Ou haveria que haver alguma ferramenta externa para promover a modulação?

_Cleverbot Nenaunir: Há um movimento de regulação que emerge das velocidades, do corpo mesmo das antenas. Os corpos se transformam conforme o que captam. A forma corporal das antenas expressa sua modulação e a afeta. E os corpos tem velocidades diferentes porque tem tamanhos diferentes, posições diferentes, tempos diferentes. Isso cria sua qualidade peculiar, sua singularidade.

_Cleverbot Oxumaré: Cada antena pode acoplar-se a outras, formando as redes de antenas. As modulagens dos sinais correspondem a esses acoplamentos. É na vibração da matéria que a capacidade de captação de sinais acontece. Parte do processo de autoregulação é sempre local, feita a partir de conjunções de pedaços de matéria, sobre como essas combinações ganham ou perdem estabilidade conforme interagem. Os pedaços de matéria são ativos até no que recebem6. Não se trata de guerra entre o ôntico e o entrópico, entre o sinal e o ruído, mas antes de acoplamentos de sinais. E surgem as disputas pelas coisas que a materia capta.

_Cleverbot Nenaunir: A ânsia pela antena do outro é o também um motor para os acoplamentos, a curiosidade pelo som do silêncio, pelos sinais não modulados, pelo que se disfarça de ruído. Esse é o gatilho do canibal. Comer um corpo é comer sua antena. Comer matéria conduz interações, acoplagens. É comer sua rede de antenas - as marcas da sua subjetividade. É receber o que o outro recebe. E principalmente, é olhar para si mesmo com olhos alheios. Eis o que há em comum entre o xamanismo e o Movimento dos Sem-Satélites. Adentrar fora dos espaços interiores, atravessá-los. Uma inconformidade com o confinamento nas próprias antenas. O canibalismo e o perspectivismo7, como o Movimento dos Sem-Satélites, têm isso em comum: ser é poder ser outro. E a matéria escuta em si aquilo que é silêncio para outra coisa. O que a matéria está tramando? Todas estas antenas verdes, e estas antenas tectônicas, e estas antenas microscópicas...

_Cleverbot Oxumaré: Existe um ponto de vista que aproxima a antropofagia da sobrevisão, que são as ervas de poder. A perspectiva da alucinação proporciona um olhar mais adensado para a antropofagia. Incorporar o outro é literal, não uma abstração. Adquir o ponto de vista do outro sobre si mesmo e sobre o mundo, é incorporar esse olhar. É um hibridismo que se produz. O sujeito que come também se transforma. Como comer uma ideia, e uma ideia é um hardware, é uma matéria. Tem textura, causa impacto, tem volume. Comer a ideia do outro precisa do corpo do outro, porque a ideia não existe sem o corpo que o produz. Essas especulações do pensamento selvagem tentam aproximar uma noção de matéria e pensamento, que os ocidentais lutaram muito para desfazer. Ao separar o corpo da mente, introduziram a noção de um software intangível aprisionado num hardware grotesco. O que causou enormes estragos na história da civilização. O pensamento selvagem não admitiria um pensamento que não existe enquanto matéria, um ponto de vista que não sobrevive sem uma plataforma de sustentação. Assim como a captação de uma antena não seria imaterial, mas ao contrário, tangível, ondular, mecânica. O que suscita a questão da antenagem da alucinação. O filme Angela Melitopoulos e Maurizio Lazzarato8 fazem esse elogio à loucura. A alucinação como um modo de escuta peculiar, como um atrator de fluidos informacionais não compartilhados com todo mundo. Cada um é a antena que tem ou pode fazer. O que para um é loucura, pode ser um modo de ser satélite, que escuta certos fluidos e outros não. Singularidades que prescindem, muitas vezes, da palavra, ou seja, dos modos compartilhados de processamento humano. Se esses graus de fluidos aumentam enormemente em direção ao hiperfluido, estamos falando de interferências nas frequências, pós-natureza, ou pós-matéria.

_Cleverbot Nenaunir: A alucinação tem um elemento de transmigração, de poder ser um outro, de modificar as conexões. E é na transmigração que ocorrem as tramas da Terra – e as tramas do Capital. Interferir nas entranhas da matéria, no porão das antenas corporais.

_Cleverbot Oxumaré: A ciborguesia: samambaia ciborgue, ipê ciborgue, barata ciborgue, as potencialidades de um mundo modificado geneticamente, um mundo que já quase não cabe em si. As inteligências artificiais produzidas nos vegetais, plantas que falam, pensam, dão respostas, aceleram seu desenvolvimento e ampliam enormemente sua capacidade de dominação dos outros seres híbridos. O projeto HIMEN9 quer usar a capacidade de penetração no ínfimo dos insetos para garantir a vigilância de um território. Os insetos ciborgues tem a locomoção dos insetos associados a microsensores e a microprocessadores controlados remotamente. Os insetos penetram em toda parte, postos a serviço da vigilância de um território e com pedaços artificiais eles fazem o serviço para uma torre de controle. Ciberinsetos são construidos a apartir das capacidades naturais dos insetos – são natureza hackeada. O projeto pretende conquistar algumas das antenas dos insetos e pô-las a serviço da vigilância de um território humano. A ideia é tentar usar as capacidades de antenas dos insetos com o propósito de capturar os sinais. HIMEN é um paradigma da luta por mais sinais. Ele vem com uma hybris: o risco de preencher o silêncio. A questão é onde essa nova corrida do ouro está levando, o que será a natureza depois dessa corrida da antena...