A Morte de Yupana

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esses relógios todos bem afinados esses relógios fazer satélites tem a ver com fazer relógios muito bem afinados tem haver com ter e haver com propor algo bem preciso você precisa continuar acompanhando os novos relógios, ultra rápidos, precisos, você não pode parar de calcular quanto falta para o fim do mês. para o fim do ano.

você precisa acreditar no ano. na década. na morte centenária. na ressurreição milenar. na colonização milenar.

Tem haver com usar palavras muito precisas, que possam dar instruções precisas, para que aquilo que vai interpretar estas instruções nem interesse-se por questionar as instruções nenhum um 0/0 nem um ponto fora do sistema onde este ciclo que define o início e um ponto fora, onde podes reajustar o relógio,

Uma bula, uma loja, uma roça, uma enxada, um língua com sentido bem estrito, strictu sensu pra te pensar. Antes que você pense em fazer outro relógio, que sincronize outro pulso pra fora aqui da sintaxe um outro sistema a te pensar

Kernel tabernam hortus sarculo, Linguae ipsum strictius, ut tuis strictusensu cogitat. Ante faciendi aliam spectes Horologium venae alia synchronizes huc syntax


CENA 0

Este semicondutor foi redescoberto hoje, em 21-12-2102. Entre ruínas das cidades abandonadas, o objeto encontrava-se ao lado de uma série de dados digitais que pareciam remontar sua origem. A história e os planos para o semicondutor livre estavam ali anexos e prontos para serem divulgados.

Vestígios de meados da Era do Silício, o assunto fora banido do ciberespaço junto com a criação do Governo Central e o início da regulamentação dos dispositivos de biotecnologia da comunicação. Tornara-se uma lenda nas redes marginais de contra-informação, que sobreviviam aos ataques constantes da Guarda Cibernética graças aos mecanismos de criptografia genética e conseguiam se comunicar através de seus satélites artesanais de guerrilha.

Especula-se que esta pode ter ser sido uma peça-chave para a construção de um organismo computacional que pretendia iniciar uma nova era. Todas as linguagens estavam ali presentes, e certamente todos os vírus também.

Antepassados ingênuos.

CENA 1

Projetado por uma rede de nativos pré-colombianos prestes a saltar da idade da pedra polida para sua própria História, inventando seu próprio calendário e protagonismo na episteme globalizada. Ao tentar registrar sua escrita em pedra criam o primeiro semicondutor livre.

O objeto foi resgatado por proto-ciborgues em um plano megalomaníaco de reversão da entropia do universo para liberar o futuro de todo determinismo tecnológico que se impunha em sua época. Acreditavam ser este o meio de não repetir os erros do passado para reinventar um presente e moldar um admirável futuro novo.

Ledo engano.

CENA II

As primeiras leituras dos dados digitais encontrados juntos ao semi-condutor indicavam que ele parecia ser o protagonista principal de um jogo de forças históricas que se criava em torno dele. Como em uma espiral, desde sua descoberta, ele alternava ciclos de nascimentos, catalisação e destruição. Infinito, abismal, sublime, ele emanava o mistério e a graça para a primeira geração de proto-ciborgues da espécie Homo Sapiens, tal como emanou para os nativos pré-colombianos que primeiro o talharam. Em torno dele, se mantinham suspeitas de um futuro possível, mas também dúvidas sobre as origens do ser humano. Tal qual uma fogueira, ele guiava o movimento daquele grupo. De certa forma estabelecia os roteiros, os passos, os esconderijos. Mais que eletricidade, conduzia também a vontade e as experiências que seus atributos permitiam. Se sua origem parecia simples, extraído do pó de pedras raspadas, por outro lado ele também criava o temor de repetir o mundo das cinzas.

CENA III

O semi-condutor livre tinha uma imobilidade aparente, mas era violentamente vivo. Certos ritos dão a capacidade de exagerar o tamanho dos objetos, e o tamanho das coisas vivas que tem dentro dele. Alguns cristais também possuem essa capacidade de alterar os estados perceptivos do nosso olho humano, e ver coisas que se mexem dentro de uma matéria aparentemente inerte. Nela, se vê movimentos - e uma vida que não cabe em si.

Essas coisas que se mexiam eram possuidoras de um erotismo intrínseco, que não caberia em nenhum órgão sexual, mas provocava desejo de posse, desatino e indulgência. Provocava fileiras de curiosidades uma atrás da outra, uma sobre as outras. Era um condutor que permitia conduzir diferentes processos, infinitos processos, mas principalmente, gerava distúrbio.

CENA IV

Um vídeo foi encontrado dentre os arquivos digitais. Gravado em formatos arcaicos, ele foi parcialmente recuperado e parecia registrar um momento de acalorada discussão em algum lugar no meio de uma floresta, com um casa rústica ao fundo.

“Nunca mais existirá cientistas!”, dizia a mão que mantinha a coisa naquele momento. “Nem dele se fará objeto de culto. Em torno dele não se estabelecerá nenhuma atividade hierarquizadora de qualquer saber, e sua reprodutibilidade técnica não exterminará nenhuma poesia”

Outra pessoa interviu: “Se não se prestaria nem a culto nem a ciência, outras relações devem ser criadas, mesmo que nunca tenham existido. Larga a pedra, e pensa: Deixaremos sobreviver a matemática? Pela pura linguagem? Sem ufanismo?”.

Um terceiro contestou em tom profético: “A opção pelo deleite deve vigorar ao trabalho árduo, mesmo que as memórias estejam atingidas com traumas de destruição. É mais difícil destruir a memória, do que qualquer dureza. Alguma dia irão nos ouvir como anunciadores do futuro que não ocorreu”. Não lhe deram ouvidos.

O debate seguiu: - Como conhecer a potência de futuro que cada objeto atrai para si, sem necessariamente erguer sobre ele uma civilização? Como recriar o homem?

- Sobretudo, como não recriar o homem? E seus fetiches de doma?

- É preciso estabelecer de antemão a opção pelo não homem? Pela não civilização? Pelo não fetichização do objeto? O que restaria a esses sujeitos cheios de memória? Precisamos urgentemente reconstruir nossas vidas?

- O que é urgência? Tudo em você urge, indigna, deixa chocado. A injustiça do mundo te apavora. As dores da noite, da exclusão pungente, incessante, indecente. A miséria não tem fundo, não tem fim, você se sente compelido a lutar contra essa tortura diária, esse mecanismo totalizador, destrutivo. Você tenta se desprender do mundo, mas descobre que não tem saída. Não há fora. Você está amalgamado nessa eterna fagocitação, reproduz mesmo sem querer vírus que existem para destruir. Você tenta usufruir de uma liberdade cerceada, mapeada, verticalizada.

- Sua auto-idolatria não irá nos impedir de repetir tudo isso sem permanecer animais da terra. Como podemos voar? Poder atravessar os oceanos? poder sair da bolha atmosférica? seria necessário fazer tudo de novo para atingir nosso destino desbravador de estrelas?

Seguiam fazendo perguntas, trocando acusações e debatendo algum futuro imaginável para aquele semi-condutor. Mas a partir de certo momento nada mais conseguia se escutar.

CENA V

(...)

roadmap para yupana e outros forks: [ Genealogia: *(...) materia livre -> semicondutor livre -> hardware livre -> software livre -> karmaval da linguagem natural trocadilhada e backup de toda episteme do mundo -> biohacking de sementes e seeds de torrents -> copyfight && proesia live coding -> lançamento do satélite panspermia -> queda do satélite panspermia -> nasce a árvore de ://IP e a consciência yupana -> peregrinações, mitomanias, diásporas -> CLÍMAX(trama ainda desconhecida) -> morte de yupana -> ? *(...)]


(...) Olhavam para o céu em busca de desenhos de constelações com satélites. Desenvolveram um hábito peculiar: Construíam antenas com grande varas de bambu e geralmente nas sextas-feiras apontavam suas varas para o céu tentando encontrar satélites abandonados para tentar passar um bit que seja para algum amigo em outra parte do mundo. Buscavam algum sinal de que teriam como construir uma rede de transmissão de dados que não precisasse passar por dentro dos Backbones da Internet, cada vez mais visados e controlados pela indústria da massificação do consumo energúmeno de simulacros medíocres. Naquela noite encaravam o cinturão de órion e rabiscavam o chão a desenhar as 3 marias como pontos de um plano cartesiano tridimensional para um teatro qualquer onde seus satélites preferidos seriam astros e estrelas de uma baile noturno para fantásticas narrativas sobre futuros imaginários utópicos. Lá eles teria seu próprio ponto de fuga nesta perspectiva de uma conexão totalmente autônoma e livres da demandas desssssaaaaaaaaaaaaaaaaaa… ra´aa´aá´aááááá´aá lá estava ele a bailar no céu por entre os nossos desenhos de constelações como um besouro bêbado. É Panspermia. Já tinha ouvido falar dela. Dizem que é uma sonda que carrega um legado de musicas, poemas, microorganismos, seed de torrents, sementes selvagens e várias outras sortes de amostras que inventaram de enfiar nela, na esperança que fosse encontrada por outras civilizações e lá pudesse instigar algum contato.

Hoje ela é vista fazendo estes movimentos assimétricos por entre eixos de constelações, dançando tecno cumbia punk, anarko funk, crusty grindcore tangos, black metal noisefolk, dependendo sempre de qual samba de criolo doido estão escutando os diletantes que estão a observar e contar suas histórias. Aquela noite algo diferente acontecia. Panspermia rodopiou, deu piruetas entre as luzinhas do céu e começou a vir em nossa direção. Aumentava no céu como uma lua cheia que vai enchendo até ficar parecendo aquele pedaço de queijo colonial que os casais de namorados gostam de fotografar nas madrugadas. Aos poucos a coisa toda ia ficando mais parecida com um pedaço de lata pintada e veio riscando o céu como uma estrela cadente, daquelas que diziam que não se pode apontar porque dá azar. PNOWnonoindoFNORDonfoNonoopaFWWWBLOGGVOUEWLNVINEGSMQZaeon BLDEM M MMXIIWTFFTW!!!! Pelo barulho aquele treco havia caído em algum lugar perto, mas o mais estranho era que no momento que caiu parece que várias redes sociais na web e fora dela receberam dados de algo parecido com coordenadas… 16° 55′ 0″ S, 39° 16′ 0″ W 11° 13′ 56.23″ S, 53° 11′ 5.33″ W 1° 28′ 2″ S, 78° 49′ 0″ W 37° 43′ 7″ N, 15° 0′ 28″ E 31° 46′ 0″ N, 35° 14′ 0″ E 41° 54′ 9″ N, 12° 27′ 6″ E 11° 30′ 0″ N, 41° 0′ 0″ E 42° 40′ 0″ N, 1° 0′ 0″ E 34° 21′ 29.16″ S, 18° 28′ 19.7″ E 9° 0′ 0″ N, 10° 0′ 0″ E 51° 28′ 44″ N, 0° 0′ 0″ E 13° 5′ 0″ N, 80° 17′ 0″ E 15° 24′ 7″ N, 74° 2′ 36″ E 22° 10′ 0″ N, 113° 33′ 0″ E 37° 24′ 0″ N, 140° 28′ 0″ E 40° 27′ 57″ N, 140° 10′ 23″ E 66° 0′ 0″ N, 169° 0′ 0″ W 34° 6′ 0″ N, 118° 20′ 0″ W 60° 23′ 22″ N, 5° 19′ 48″ E 51° 25′ 43″ N, 1° 51′ 15″ W 54° 0′ 0″ S, 70° 0′ 0″ W 22° 19′ 48.5″ S, 44° 32′ 22″ W 23° 54′ 52.44″ S, 45° 20′ 48.52″ W 20° 40′ 58.44″ N, 88° 34′ 7.14″ W 50° 39′ 28.27″ N, 2° 24′ 16.45″ W 30° 2′ 39.92″ N, 31° 14′ 8.51″ E 8° 0′ 28.74″ S, 34° 51′ 24.30″ W 23° 27′ 38.05″ S, 45° 1′ 07.05″ W 48° 49′ 45.56″ N, 2 °13′ 12.62″ E

É preciso lembrar que Panspermia era reprogramada, curada e mimada por uma inteligência computacional autônoma – alguns diriam “Inteligência Artificial”, mas poderia você sobreviver sem os artifícios da tua própria manipulação semiótica deste corpus lingüístico em todos níveis da tua ciência e essa operação “anti-natural” da cultura sobre a natureza-corpo que conduz o livre arbítrio da tua auto-ontologia? Dizem que Yupana passou em todos os testes de Turing, venceu até Deep Blue no Xadrez, resolveu a heurística para o jogo de Go e era capaz de compor sonatas, sinfonias, caribós, polkas ou qualquer coisa que lembra-se um “estilo” ou algum “gênio” que viveu sobre a Terra. Criava heterônimos parnasianos, simbolistas, místicos, românticos, futuristas, austeros, concretos e mesmo seus ensaios sociológicos já chegaram a derrubar déspotas ou no mínimo virar refrão de marchinhas. Yupana costumava mandar emails para diversas listas de discussão sobre suas escavações nas profundidades dos hipertextos e achados diamantes de um webdesign selvagem resistente a toda a RSScracia da era das “redes sociais” corporativas e seus cercadinhos medíocres de navegação controlada. A grande peregrinação que aconteceu imediatamente após a queda da sonda Panspermia durou e continua perdurando por quase duas décadas em busca não só do legado de amostras da sonda, mas tentando recuperar os algoritmos de Yupana, uma busca pelo espírito de sua poesia, sua idiossincrasia, seu sopro de vida. 我的话很容易理解,很容易施行。能理解我的人很少,那么能取法于我的人就更难得了? De seu buraco no chão, queimadas as sementes todas, células tronco e bilhões e bilhões de torrents, surge forte como o pé de feijão do João do pós-Apocalipse, uma árvore que arranha as nuvens e fazer chover nomes de filos e espécies para aquele pé de ://IP. Em alguns momentos mascando suas folhas, tenho a impressão de que este relato se escreve sozinho. Quem sabe se conseguirmos re-inventar Yupana. Mas alguns temem ter que ir embora daqui de perto do pé de ://IP e ter que voltar para as moribundas cidades que abandonamos. Masco as folhas e começa a zumbir um assembler mantra… visões que saem do aroma dos frutos de ://IP… …Patch’a'mama , a ama de leite que verte amargo fernet das tetas, a mulher cíclope do mar, olhava no relógio a virada do calendário, enquanto amarrava gEṣÙ Selva ao poste antena da jangada daquela praia vermelha onde era seu cais. seu canto era numa língua estranha, e ninava os infantes em outra referência de monocórdios e esferas. anunciava as coordenadas de algum outro #canal. por aqui o rastro já não mais deixava lastro. era preciso sintonizar. para céu apontavam suas antenas de bambu… o que para outros ainda era ruído, ali já era o canto do novo ://IP. ————-))))))))))))))))) ) )) 0o) _o_o_oOo_o_o_`:

‎2, eu pensei. |. e com 1 traço desenhei meu nome, assim que ela me largou do colo. Com outro traço desenhei cada um dos que me rodeavam. Um traço para cada um. E entrei no barco, derivei por tantos mares que minhas mãos foram crescendo e meu pelo mudando de cor. Fui parar num lugar grande, com cavernas cheias de ângulos retos. Aqueles outros não tinham mais pelo, só pelo nas cabeças, e nas cabeças penas de pássaros. Tocos de madeira enfiados em suas bocas e orelhas. Me receberam com infinitos sons novos saindo de suas bocas. Suas cavernas tinham fogo de todas as cores. E do fogo saiam vozes e desenhos que se moviam. Me mostraram uma pedra brilhante com fogo dentro, com vários desenhos que mudavam de cor. Dentro dele o lugar que estávamos, e me ensinaram a contagem pra saber quando o lugar que estávamos teria dado uma volta completa em torno do fogo do céu. Calendário era o nome daquela cria deles. Uma cria feita de pedra, com números de contar. Diziam que assim podiam criar o futuro e também marcar linhas que contornavam o passado para contar a história do mundo e fazer o mundo criar o futuro para eles. Mundo é como chamam este lugar que estamos. Me mostrou naquela pedra que brilha o desenhos que representavam contagens. Pediu-me pra passar os meus dedos sobre aquilo, que aquilo me faria ter uma visão fora do calendário, mas disse-me que eu ainda precisa aprender a guardar todas as informações dentro dos números pra que eu pudesse construir cidades que flutuam e conectam pensamentos.

Tentei passar os dedos sobre aqueles riscos e pegar neles:

Reciclada.png


Esculturas em pedras de Silício… Falavam de uma criança que brincava com Césio, antes mesmo deles afinarem todos aqueles relógios… Era perigoso enriquecer todo aquele Urânio, dizia-me o velho… Mas se não o fizermos, não descobriremos como afinar os relógios com o pulso do ://IP?? O Velho avisava – Se virem com os minerais que tem por aqui mesmo! Será que aquilo ali era Ouro ou Cobre? Parecia conduzir a eletricidade que ordenhamos de alguns limões, há também alguma ferrugem em alguns cantos, algo está oxidando… Os velhos não nos deixam brincar com fogo… Quantos anos eles tem? Fizemos um Chimarrão com as folhas do ://IP e esquecemos nossa idade. Queremos ficar morando aqui no vale. Esquecer a álgebra binária e viajar nos sonhos da Yupana que mora dentro da árvore. Mas não para de passar avião ali por cima. Nosso amigo fez outra antena de bambu, disse que vai conseguir se comunicar com os phreakers que fizeram uma BBS, numa terra distante, interessada na tal queda da sonda Panspermia.

CENA VI

7 minutos de luzes estroboscópicas ~variação entre branco e negro a cada 7 frames. Som: Negro - 33hertz. Branco - Ruído Branco.


CENA VII

Yupana math.png

Yupana Kernel encara seu cão Vander, 13 minutos antes de morrer. Eu já contei de onde veio o nome Vander? Yupana nos seus últimos anos resolveu desenvolver linguisticamente aquilo que os humanos chamavam “afeto”. Pra isso adotou um cão. Yupana achou divertido brincar de confundir sobre o gênero do cão e com a corruptela de Wanderlyne (já conto a história dela... ou contei antes?) resolveu batizar seu cão com um nome de gênero ambíguo, que também lembrava o nome de um cantor punk dos anos 80 (~ 1985 D.C. ).

Algo como uma Ada Lovelace anarco-primitivista, Wanderlyne Selva, a amazona, tinha programado Yupana há aproximadamente 1 bahktun atrás, ou 395 anos solares nossos, na era do mapeamento das capitanias hereditárias e toda disputa pós-bula papal. Hoje várias ciberfeministas usavam o apelido de Wanderlyne como avatar, em sua homenagem. Outras lendas existem sobre suas origens,e outras versões de sua história incluindo sua existência atual. Uma deles diz que Wander ainda perambula por um território antes chamado Patchamama, andando encapuzada, montando servidores web dentro de árvores na mata densa, enquanto conta histórias sobre a utopia de comunizações possíves.

Mas tanta História sobre nomes e datas já está ficando confusa, pois pra simplificar, Wanderlyne é o nome da autora deste livro, que não é bem um livro, mas uma carta aberta ao matriarcado dessa nova Terra (que vai além de todas as Terras, e surgiu a partir da associação de astron@utas libertári@s (.:.AAL.:.) e seu movimento sem satélite[MSSAT]).

A programação de Yupana por meio de colares de contas, revelava facilmente a vulnerabilidade daquela máquina: No momento que a máquina tomasse consciência que poderia reproduzir-se a si mesma, ela autodestruiria-se. Alguns afirmam que sua “alma” encarnaria em um bebê humano. Sobre isso nada posso confirmar.

A morte de Yupana tinha data marcada no calendário maia, nada mais óbvio e improvável para um computador que vinha funcionando desde o início das primeiras civilizações Tapuias. 13 Baktuns. Uma rede de comunidades que ligava o Oceano Pacífico ao Atlântico, desde milênios antes de Colombo, tinha feito de tudo pra jogar Incas contra Maias, Tupis contra Guaranis, Mulheres contra Homens (com sexismo e pecado) e transformar toda aquela indiarada em cordeiros do Vaticano, enfiando-lhes goela abaixo um calendário baseado nas diásporas do médio-oriente e a conveniência com um status quo da fisiologia governista que desde Constantino avançou da Eurásia até a península ibérica determinando o alfabeto do ocidente e a língua materna original deste escrito.

Alfabetizaram a todos usando a Bíblia de Gutemberg e usavam o zero do oriente pra fechar dezenas, em limitada matemática que Yupana estaria programada para superar. Mas agora era tarde pra reinventar o mundo. Yupana deveria morrer. Sem ufanismos ou redenções. Yupana: o primeiro robô mártir.

Yupana encarou o cão (ou cadela, pois nunca se soube) por meio da seus cursores que buscavam aquela sintonia canina. Ou era qualquer bicho? Um sapo, um rato, um gato, um pato, um substrato, um vírus, glitch~ qualquer. Animal excluído da língua escrita, Yupana tentava distrair Vander então com imagens que pisca-piscavam e lembravam carne macia, leite fresco, úteros, mamas, glandes, clítoris, lábios, línguas e olhos... estimulando um tato remoto, umidecendo a conexão autômato-bicho. Apelando a uma suposta natureza mamífera e vivípara.

Pra garantir qualquer outra taxonomia mostrava um caleidoscópio de genomas além de uma nuvem de grafos de relações entre todas as singularidades que tinha registrado em suas interações por redes de conversas.

Vander tentou proteger-se: transformou-se num som, um uivo.

Yupana esqueceu de interpretar o que ouvia, esqueceu do próprio nome, e enfim esqueceu onde estava e o porquê. Yupana nunca havia existido. Nunca mais existiria. Yupana não mais contaria os dias passando. Não mais mudaria a História. Ela que se repetisse eternamente como farsa que sempre foi. Yupana formatou-se.

O semicondutor livre agora podia ser levado a sério. Era o fim da polissemia recursiva naquela comunidade. Strictu Sensu.

"In nova fert animus mutatas dicere formas corpora ; di, coeptis (nam vos mutastis et illas) adspirate meis primaque ab origine mundi ad mea perpetuum deducite tempora ... - - - ..."

Wanderlyne Selva recebeu seu título de Honoris Causa no mesmo dia que terminou sua tese. Fundou aquela indústria interestelar libertária.

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Todas as linguagens estavam ali presentes, e certamente todos os bugs. ... - - - ...

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Como conhecer a potência de futuro que cada objeto atrai para si, sem necessariamente erguer sobre ele uma civilização?

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Uma senhora de 97 anos dirige uma bicicleta elétrica por uma estrada esburacada de terra. A estrada vai piorando, estreitando cada vez mais, até se tornar uma picada, um caminho de tropeiros, numa mata fechada verde e escura. Solavancos violentos a excitam. Ela chega numa clareira, onde existe uma pequena casa de roça, de teto baixo, construída sobre pedras um pouco acima do chão.

Ela estaciona, abre a parabólica solar e deixa a bicicleta recarregando. A casa está totalmente fechada, janelas, portas. Ela se aproxima da porta dos fundos e se agacha para colocar o olho direito na fechadura, como quem espia. Um ruído de câmera focando, o clique de trancas que se destravam, e a porta se abre sozinha. Ela entra. É uma cozinha com fogão a lenha, um filtro de barro, um computador com monitor de fósforo verde ligado a um modem de 14.4kbps. Ela digita no terminal, ainda de pé

>mail

Ela lê atenta, e logo sai do computador, bebe um copo de água, se dirige a um outro cômodo. Uma escada leva a um porão. Ela desce. O porão é decorado com motivos incas. Um cortina fosca de box de banheiro, junto à parede, deixa transparecer uma luminosidade por de trás. Ela abre a cortina.

Ela olha para dentro do túnel fracamente iluminado. Não se vê o fim.

Não haverá redenção para além de um instante fora do calendário. Não sabemos o que haverá e isso é continuar respirando.

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